Questões árduas (como a do post anterior) a parte, é fato que as sementes sartreanas já começam a germinar - se não ainda pela ciência, mas já pelo pensamento em geral. E aqui é aonde entra minhas reflexões sobre o Filósofo.
Costumo dizer que sou amplamente influenciado por Nietzsche e Sartre. Ainda por não ter lido suas obras por completo, posso dizer que algumas opiniões desses pensadores com as quais tive contato me puseram em estado de reflexão e passei então a submeter cada novo aspecto captado da realidade aos ensinamentos desses dois grandes filósofos. Creio que os tais foram sobras de um pensamento moderno que se confiou demais numa forma de alcançar o conhecimento que se mostrou tão salvadora quanto destruidora da humanidade, e por isso talvez haja alguma "pureza" nesses dois intelectuais que, ainda muito criticados, mostraram caminhos alternativos de ver a realidade, seguindo na direção contrária de uma modernidade ao qual já tentaram enterrar com o sufixo de pós.
Diante disso, ao ler Sartre, vejo quão nova e problemática é a sua proposta. No entanto, vejo também muito de sua validade. E nesse debate, crio meu próprio conceito do que é a realidade.
A primeira coisa que se deve ter em mente é que a realidade é um produto de diversos âmbitos: a realidade social, a realidade da natureza, a realidade da relação homem-natureza, a realidade até metafísica (para não dizer espiritual). Se todas elas forem classificadas enquanto elementos que constitui a Realidade-mor, vai ser mais fácil de compreender. A realidade humana certamente não é a natural. A realidade de um animal não é a realidade do espírito (que é um conceito abstrato, instrumental, do qual não quero me ater para provar existência. Se digo que o espírito se trata de uma realidade, é porque tal categoria deve sua existência pela experiência). Não é da Realidade (enquanto conjunto de realidades) que estamos querendo dar conta aqui, porque cada uma tem sua própria forma de ser produzida, portanto, o conjunto precisaria ser depurado por completo. Aqui, é mais importante tentar compreender a realidade que nos cabe, a saber, a das relações homem-natureza e homem-homem.
A relação homem - natureza: o homem se utiliza da natureza para objetivar suas vontades, construir o que lhe é necessário em termos de uso e de expressão. A realidade de uma cadeira, de um talher, ou uma obra de arte, portanto, são determinadas pela sua ideia em contraste com a objetivação. Nem sempre um produto da natureza pode ser 100% do planejado pelo homem, pois no caminho há fatores limitantes. É por isso que se justifica, por exemplo, as centenas de tentativas de fazer o primeiro avião voar de verdade. Uma ideia só se torna real, portanto, quando objetivada. Ou seja: a realidade da relação homem-natureza não está na sua concepção virtual da memória, mas na sua construção, e a partir de então, das consequências que tal construção pode ocasionar: diversos tipos de cadeira, diversos tipos de talheres, diversos tipos de veículos, todos se adequando agora ao gosto do consumidor. A realidade aqui nada mais é do que um produto mediado entre a percepção da materia prima e sua realização naquilo que se pretendia criar. Em outras palavras, a realidade no âmbito homem - natureza é o construto físico do pensado, o qual, por sua vez, fora de sua realização física, não se pode dizer real.
Algo parecido surge na realidade criada pela relação homem-homem: o real é aquilo que se vê, porque o fenômeno observado é por si justificável. Só que o real na relação homem-homem, a realidade muda a cada experiência adquirida. É como se fosse a teoria antropológica da evolução humana: se temos uma linhagem evolutiva explicada pela ciência, a teoria pode mudar caso encontremos um novo tipo de ancestral a qualquer momento. E a realidade anterior deixa de existir para dar razão à nova. A realidade aqui, no fim das contas, é uma produção social que envolve tanto a reflexão da mente humana quanto a experiência vivida. Uma opinião sobre qualquer coisa tem tanta realidade quanto outra opinião. A verdade se constrói pela legitimação, dado ou pela comprovação empírica (que pode ser sempre superada por outras comprovações empíricas a qualquer momento) ou pelo convencimento retórico. Nesse caso, a realidade no âmbito da relação homem-homem não é duradoura, é instável, e pode ser atualizada sempre que a minha opinião sobre você mudar ou for cada vez mais corroborada. A experiência de nossos dias dita o que é o real. Se sua mulher lhe trai e você não percebe isso, a sua realidade é que ela é fiel. E se você descobrir que não, uma nova realidade passa a existir. Por isso tudo o que vemos é real, até a ilusão antes de ser descoberta como algo falso.
Diante disso, conclui-se que existem dois tipos de humanos: aqueles que não se preocupam em apreender o real e aqueles que se preocupam. Apesar de realidade ser o que se vê, há aqueles que não se conformam com a realidade do que já descobriram. E querem sempre descobrir mais, revolucionar-se interiormente a todo momento, atualizando a realidade através de estudos, leituras e reflexões. Este grupo dos inconformados é aonde se insere os formadores de opinião sérios, os filósofos e demais seres influentes de outras cabeças. Portanto, a realidade apresenta degraus, apesar de não haver limites. Ela é o que conhecemos, e isto tem a ver com o saber. Quanto mais se sabe, mais se enxerga o real. Nesse caso é possível que alguns homens tenham mais visão da realidade do que outros, e podem legitimar isso com a prova empírica ou mediante o convencimento pela retórica, mas nunca deverá negar que o ignorante também tem uma realidade, cabendo a este ignorante decidir se ele quer beber um pouco mais de realidade ou ficar na sua própria, por questões sociais e/ou subjetivas.
É isso.