As teorias sociais brotam no seio de determinados campos da sociedade e, basicamente, pouco se costuma sistematiza-las numa única linha explicativa, de tal forma que os trabalhos acadêmicos suportam quase sempre no máximo uma linha teórica por produção. Isso se deve ao fato de, em cada trabalho, haver a necessidade ainda de se discorrer o esclarecimento quanto ao objeto e metodologia empregada, além do fato de que todo trabalho acadêmico precisa recortar um determinado ponto da realidade para sua análise. No entanto, não nos viciemos a isto: já houveram sociólogos que decidiram pensar (ou desejar pensar) a sociologia de um ponto de vista de longo alcance, na ambição inclusive de deixar disposto didaticamente um conjunto de leis gerais que governam a humanidade. No embate de visões historicistas contra positivistas, essas ambições foram muitas vezes desconstruídas e reconstruídas. Ao longo das décadas de desenvolvimento das ciências sociais, portanto, vários tentaram contribuir para a ciência, seja em seus próprios métodos e teorias, seja na adaptação de teorias anteriores. Hoje, por conta de tudo isso, dispomos de diversas teorias que se encaixam – ou não – umas nas outras, e é sobre este fato que tento discorrer aqui.
Na infância dessa ciência, o pensamento era confiado na capacidade da total compreensão do mundo a partir da razão. Esse racionalismo foi base fundamental para o desenvolvimento da corrente filosófica do positivismo, e consequentemente, da ciência positivista. Isso implicou no fato de que vários sociólogos dessas décadas se ocupassem em querer estabelecer explicações gerais sobre a sociedade, estabelecendo leis sociais que valessem em qualquer campo considerado social. Nos anos seguintes, caminhando para a adolescência da sociologia, vimos uma ciência cada vez mais preocupada com seus métodos, ao passo que critica as relativas explicações fáceis do positivismo. Assim, a ciência adolescente se critica, não aceita que a realidade seja produto da natureza como os processos químicos e físicos, pois a racionalidade humana é de propriedade de todos, cientistas ou não, e isso faz com que se pense que os homens do mundo não são apenas sujeitos reativos e predeterminados roboticamente a servirem sempre segundo as leis sociais. A constatação disso, e consequentemente negação da argumentação relativamente simples da linha positivista, fez com que emergisse a necessidade de considerar o contexto e o sentido das ações sociais entre os indivíduos, para só então compreender como as relações sociais passam a ser determinadas (ou influenciadas), cada uma de acordo com sua expecificidade. Essa necessidade de considerar fatores históricos fez com que a ciência se tornasse mais modesta do que quando era ambiciosa, e abriu caminho pra uma série de novas teorizações – e críticas.
A primeira parte da fase adulta da ciência tinha em vista revisar todo o debate travado entre positivistas e historicistas e, a partir daí, buscar alguma forma de conciliação ou mesmo terceira via da teoria social. Diversos autores, durante toda a primeira metade do século XX, vieram a desenvolver teorias de ordem microssociológica como o estudo de representações sociais, comportamento e organização social. Parsons, Goffman, Simmel , entre outros, buscavam compreender a sociologia a seu modo, desenvolvendo argumentações anteriores e propondo novos problemas. Mas um embate continuava sendo explícito, filho das problemáticas entre positivistas e historiadores: era a luta estrutura x ação. Essa luta seguiu-se para a segunda metade da fase adulta, no qual surgem como expoentes do estudo autores como Pierre Bourdieu, Anthony Giddens e Norbert Elias. O primeiro, resgata um pouco da tradição das teorias sociológicas clássicas, buscando resolver o impasse da relação entre estrutura x ação. Sem dar muito espaço para o domínio de um sobre outro, estabelece o conceito de habitus para servir de possível via de trânsito entre as duas extremidades (o indivíduo, de um lado, e a sociedade, de outro). O liquidificador teórico da argumentação de Bourdieu continua atual, apesar de haver críticas a este quanto à ambição de dar conta da sociedade do mundo como os pensadores clássicos. O segundo autor, caminhando na mesma preocupação para resolver o impasse, desenvolveu o conceito de estruturação (Estrutura + Ação) da sociedade. Apesar de não ser um conceito facilmente claro, as argumentações de Anthony Giddens continuam sendo atuais e seguindo uma nova linha de preocupação sociológica no porvir de nossas próximas décadas, qual seja a de ordem pós-estrutural, pós-moderna ou crítica da posmodernidade. O terceiro autor tenta não entrar no embate direto da relação estrutura e ação. Mas para ele, é fundamental manter-se no questionamento das implicações da sociedade perante o indivíduo e vice-versa. Para isso, estabelece na conceituação das configurações sociais uma forma de perceber que tensões sociais existem nas relações, e estas tensões não devem passar despercebidas pelo olhar frio da ciência social. A lógica de compreensão do conceito de figuração se apropria, portanto, da unidade fenomenológica do indivíduo, por um lado, e das características moldadas e moldadoras da sociedade ao qual ele está inserido, por outro.
Tanto Elias, quanto Bourdieu, quanto Giddens, Parsons, Goffman, Simmel (e outros não menos importantes como o filósofo Michel Foucault, os fenomenólogos Harold Garfinkel, Alfred Schutz, a escola de Frankfurt) além dos clássicos autores das ciências sociais (Durkheim, Weber, Marx) e seus filósofos precursores (Saint-Simon, Comte, Nietzsche, Hegel), contribuem diversamente, ora despontando para outros assuntos, ora tentando resolver os embates teóricos mastigados por décadas, para o grande prato eclético de saladas teóricas das ciências sociais, no intuito de estabelecerem formas de pensar para cada fenômeno da vida social, que é igualmente eclético. A constituição subjetiva do indivíduo + a inclusão dele na sociedade e sua disposição para agir socialmente + a configuração que ele estabelece num meio social, seja para influenciar ou ser influenciado ou ambos os acontecimentos + o modo como ele se comporta em busca de seus objetivos + as regras preestabelecidas no meio onde vive + as relações objetivas que implicam na moldura das formas de expressão, além de influenciarem sua representação de mundo + as teorias sociais gerais, estruturadas ou construídas no dia-a-dia são assuntos pertinentes e que, apesar de serem de difícil fôlego para um único pesquisador dar conta, juntas somam o que há de possibilidades da sociologia quanto à compreensão do meio social, seja ele local ou universal.
É por isso que a sociologia é uma ciência rica e talvez a mais fantástica de todas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário