Algo que tem me chamado atenção ultimamente é o fato de a temática da morte ser tão difundida na boca de jovens. Trajados de frustrações de diversas naturezas, logo parecem se render a situações extremas. Sem desconsiderar que cada caso de frustração tem sua própria razão (psicológica, social, fenomenológica), também percebemos que esse discurso não é raro para uma parcela da juventude que faz parte de uma certa faixa etária e também de uma determinada classe social. Pelo menos é o que tem aparecido para mim enquanto uma rápida reflexão diante dos contatos que tive nos últimos tempos com pessoas com crises existenciais. A grande dúvida, no entanto, é: isso faz parte somente das últimas gerações ou é por que estamos numa sociedade confessional estruturada na internet que essas frustrações passam a ser mais conhecidas? Não se sabe ao certo, mas é possível encontrar alguns fragmentos desse quebra-cabeça.
Antes, costumávamos compartilhar frustrações com as pessoas mais próximas: alguns poucos amigos, familiares, cônjuges. Hoje, com o avanço tecnológico em favor de novas formas de sociabilidade, os laços sociais se ampliam e adquirem novas nuances, e isso permite uma conversação padronizada (por meio do texto e do vídeo) para todos, amigos de sempre ou recém-conhecidos. Também surgem novas relações sociais, e o prazer da conversação que surge como um dos valores dessas estruturas que são os sites de rede social tornam as pessoas muito mais propensas a conversar coisas sobre diversos temas, incluindo suas próprias frustrações. É nesse contexto que novas pessoas vêm até nós e passamos a conhecer suas vidas a partir do momento que elas se permitem a compartilhar a própria percepção da vida conosco. Além disso, os blogs, apesar de possuir menos movimentação no compartilhamento de anseios comparado às mídias sociais, são estruturas que funcionam como o diário do século XXI. Essas são características básicas da sociedade confessional.
A tecnologia que orienta as mídias sociais também tem promovido outros valores, como o narcisismo. Mídias sociais como o Facebook ou Twitter, aonde você costuma ser o que você escreve e você só existe no espaço virtual para seus amigos enquanto estiver produzindo conteúdo (na maioria das vezes textual), são exemplos emblemáticos. Assim, qualquer coisa que postemos é considerado um conteúdo a ser lido pelos que fazem parte da nossa rede social na internet. E quando não há muito a oferecermos à rede, acabamos compartilhamos coisas do cotidiano que beiram a futilidade. A partir dessa nossa autopermissividade, também surge uma crença de que o nosso cotidiano possa interessar a quem nos segue - ou pelo menos não estamos nos importando com o que os outros vão ler quando postarmos coisas sem informações relevantes. Mas acredito que uma pessoa que cria um perfil de Twitter que tem 0 seguidores não iria para o site querer compartilhar suas frustrações. Nos é preciso um público que consuma o que estamos produzindo, mesmo que não escrevamos nada de relevante. Assim, saber que tem alguém que pode nos ler diante de qualquer tweetada ou atualização de status no facebook nos torna narcisistas a ponto de acharmos que nossas atualizações têm algum valor por parte daquele que lê, como se o simples fato de os outros nos lerem fosse já um prêmio conquistado. Assim, compartilhar nossas piadas internas, sentimentos e qualquer outra coisa se torna importante para nós porque achamos que alguém se importaria com isso. Expressões de narcisismo.
Esses são apenas alguns elementos de como a geração atual possui ferramentas para produzir seu discurso extremos com relação à vida. Mas isso ainda não determina que só estas gerações tenham carregado consigo essas temáticas existenciais. Talvez precisamos lembrar de algum movimento de insatisfação anterior para indicar que houveram outros meios de compartilhamento da frustração. E encontramos isso no Existencialismo e nas expressões artísticas do Século XX (o expressionismo, cubismo, dadaísmo como formas de expressão de mal-estar da sociedade durante as guerras mundiais). Ainda que não houvesse com quem ter um feedback conversacional com qualquer pessoa do mundo, as insatisfações eram compartilhadas numa obra de arte, num livro ficcional ou nos bares boêmios. Falando em boemia, não podemos esquecer todo o mal-estar que acompanhou a juventude adepta do Romantismo do mal-do-século do século XIX, devotos de Lord Byron, Goethe etc.
Por esses exemplos, sinceramente não acho que a geração suicida seja a dos anos 90, ainda que com todo o movimento grunge e o pós-punk tenham disseminado a negatividade e o punk, a anarquia que deixaria Émile Durkheim amedrontado, tenham conquistado fãs ao redor do mundo e semeado esses sentimentos de niilismo. Mas não devemos ignorar que, assim como era específica cada época que envolveu as insatisfações de seus jovens e suas expressividades a favor do suicídio, a geração anos 90 também tenha suas insatisfações. A especificidade desta época atual é que podemos, pela primeira vez, ver uma geração com voz, e isso faz com que descubramos algumas coisas. Abaixo estão listados alguns pontos construídos em torno da minha relação com pessoas que carregam o discurso niilista:
1. É muito comum esse sentimento negativo da existência,
2. Costumamos praticar esse sentimento por frustrações relativamente comuns, como crises de identidade, crises amorosas ou de relacionamento com o mundo.
3. A faixa etária desse tipo de niilismo está entre os 15 e 25 anos (essa faixa etária pode mudar, baseei-me por considerar que seja a época em que a juventude amadurece e ainda está fora do mercado de trabalho, ocupando-se de pensar e praticar outras coisas que não a preocupação com o trabalho, que se tornaria mais comum depois dos 25 por inúmeros motivos, entre eles a necessidade de construção familiar).
4. É possível que as regalias que a juventude tem hoje faça com que elas tenham se preparado menos para lidar com a vida se comparado a seus pais, e isso se deve muitas vezes à criação. Para compreender melhor esse fenômeno de produção de novos niilistas, a jornalista Eliane Brum criou esse texto fantástico: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI247981-15230,00.html
Se ao menos eles dessem tempo ao tempo...




