Há exatos 2 ano Murici fez parte do grupo de cidades mais atingidas em Alagoas e hoje ainda é possível perceber os destroços desse 18 de junho sombrio. Aqui vai um relato desse dia.
Desde alguns dias antes, lembro que algumas pessoas já acreditavam que haveria uma enchente na cidade, o que fez acionar caminhões e carroças levando bens para a parte alta de Murici. Até então, se tratava de uma "rotina", uma vez que de 2 em 2 ou 3 em 3 anos as chuvas provocam o transbordar do Rio Mundaú em alguns metros. Como essas enchentes quase regulares chegavam sempre até um determinado ponto (seja no Bar da Noite ou no máximo até a padaria do Bia), parecia sempre subentendido os locais aonde as águas afetariam ou não a cidade. Pois bem. De uma certeza tínhamos: alguma enchente haveria de ocorrer nos próximos dias, já que o noticiário informava uma forte chuva em Pernambuco.
Na noite do dia 18, eu voltava da Universidade quando vi Murici às escuras. Na cidade já faltava energia desde cedo. Muitas notícias de que a enchente iria ocorrer de certeza naquela noite fez eu e vários estudantes irem até a beira do Mundaú constatar o seu nível. Lá, fomos advertidos a sairmos imediatamente do local sob o risco de sermos atingidos por uma leva de água descontrolada. Parecia muita ficção, mas voltamos para a parte de cima da cidade. Na volta, percebemos que a água nas ruas estava aumentando aos poucos. Aí cheguei em casa. E menos de uma hora depois, por volta da meia-noite, a rua parecia caótica. Carros passando em velocidade com alguns equipamentos, as pessoas saindo de suas casas. A cacofonia não deixava claro do que estavam falando. Somente quando coloquei os pés na calçada é que percebi que a água já estava vindo na nossa esquina (moro na rua da prefeitura). A partir desse momento, corremos para suspender os bens de casa. Colocamos tudo em cima de mesas, e não deu tempo de levar conosco nada além da roupa do corpo.
Fiquei desabrigado a partir dali. Por sorte a água só atingiu metade do nível da casa, mas foi suficiente pra ter estragado tudo o que era de madeira. Fora de casa durante toda a madrugada, vi logo depois do amanhecer o desespero de muitas pessoas que perderam tudo. A água ainda demorou a baixar. Parecia um ensaio de apocalipse. Caótico, irracional. Nos dias seguintes, em casa de parentes que não foram atingidos, acompanhei o salvamento de sobreviventes ilhados por helicópteros do corpo de bombeiros. Um trabalho heróico. O som frenético dos helicópteros pousando e partindo do Estádio Municipal nos faziam lembrar de outras catástrofes naturais, como os terremotos haitianos.
Demorou muito tempo até que a situação se normalizasse. Só meses depois da limpeza nas casas e nas ruas é que pude visitar os locais mais atingidos, e constatar que algumas ruas já não existiam, nem sossego, nem o fim da perplexidade de todos. Aos poucos viam-se alguns sorrisos: pessoas que se reencontravam, que salvavam uma ou outra coisa de suas casas caídas. A história mais marcante pra mim foi a da rua da Floresta, quando uma cadela salvou um senhor cadeirante levando-o para um local sem alagamento. Até então não se tinha mais notícias do animal, que foi encontrado depois que a familia voltou para o local aonde antes era casa e depois apenas escombros - ele estava lá, vivo, em algum local que restava da casa, esperando por seus donos. Foi emocionante ter presenciado o reencontro. Sinal da resistência e fé para o povo de Murici que tanto sofrera, mas que estava prestes a recomeçar a vida.
Dados dos desastres em Alagoas e Pernambuco
Atualizado em 12/07/2010 - às 17h22
Ações da Sedec
*SE - Situação de Emergência
*ECP - Estado de Calamidade Pública MATERIAIS DE AJUDA HUMANITÁRIA Kit de Abrigamento: Colchão, Cobertor , Toalha de banho, Lençol de cama, Travesseiro , Fronha e Rolos de Lona (4 x100, 6 x 100, 8 x100 metros) CESTAS DE ALIMENTOS Açucar - 2kg, Leite em pó - 1 kg, Farinha de Mandioca - 2 kg, Macarrão - 1 kg, Feijão - 3 kg, Óleo - 2 litros, Arroz - 10 kgs ,1 Kg - Floco de Milho = Total de 23 kg. A Cesta de Alimentos atende 5 pessoas por 15 dias.
12/07/2010
(Adaptado por Claudionor Gomes).
Em Alagoas foram destruídas ou danificadas 18.715 casas, além de 666
quilômetros de estradas. Em Pernambuco, foram 4.478 quilômetros de estradas
danificados, 142 pontes destruídas e 14.136 casas destruídas ou danificadas.
Em Alagoas, a situação foi essa: 26.618 mil desabrigados 47.897 mil
desalojados e 26 óbitos; em Pernambuco: 26.966 mil desabrigados 55.643 mil
desalojados, e 20 óbitos.
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No Estado de Alagoas, quatro municípios decretaram situação de
emergência, e 15, estado de calamidade pública. No Estado de Pernambuco, 27
decretaram situação de emergência e 12 estão em estado de calamidade pública.
Os 19 municípios que decretaram situação de emergência ou calamidade
pública em Alagoas são: São Luiz do Quitunde, Matriz do Camaragibe, Jundiá,
Ibateguara, Quebrangulo, Santana do Mundaú, Joaquim Gomes, São José da Laje,
União dos Palmares, Branquinha, Paulo Jacinto, Murici, Rio Largo, Viçosa,
Atalaia, Cajueiro, Capela, Jacuípe e Satuba.
Em Pernambuco foram 39 municípios: Agrestina, Água Preta, Altinho,
Amaraji, Barra de Guabiraba, Barreiros, Belém de Maria, Bezerros, Bom
Conselho, Bonito, Cabo de Santo Agostinho, Camaragibe, Catende, Chã Grande,
Correntes, Cortês, Escada, Gameleira, Gravatá, Ipojuca, Jaboatão dos
Guararapes, Jaqueira, Joaquim Nabuco, Maraial, Moreno, Nazaré da Mata,
Palmares, Palmeirinha, Pombos, Primavera, Quipadá, Ribeirão, São Benedito do
Sul, São Joaquim do Monte, Sirinhaém, Tamandaré, Vicência, Vitória de Santo
Antão e Xexéu.
Fontes: Ministério da Integração Nacional. Link: http://www.mi.gov.br/comunicacao/noticias/noticia.asp?id=5111
Secretaria Nacional de Defesa Civil: http://www.defesacivil.gov.br/noticias/noticia.asp?id=5121
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