terça-feira, 12 de junho de 2012

Mais uma morte.

Naquela manhã fria, ninguém saiu da porta do apartamento cinco. O único barulho que se podia distinguir era o do crepitar da lareira, suplicando para consumir os últimos resquícios de madeira já decompostas em carvão. A ausência da regularidade das atividades do homem fez os vizinhos estranharem aos poucos o porquê daquele dia diferente. Primeiro não se importaram; aquele homem não se importava com eles mesmo. Um dia depois, alguém comentou que o seu jornal não havia sido pego desde ontem e permanecia portanto ali na porta. Dois dias depois, uma criança perguntou à sua mãe aonde estava aquele senhor que não lhes dava bom dia. Mas as coisas só ficaram realmente preocupantes quando deram 4 dias e alguém lhes disse ter certeza de que aquele homem estava lá dentro, afinal não havia deixado a sua chave do apartamento na recepção. Foi quando decidiram chamar a guarda municipal. Algumas horas depois devido ao mau tempo, uma viatura chega para averiguação. Bateram à porta tentando obter alguma resposta. Sem sucesso. Chamaram o homem pelo seu nome, mas nenhum retorno. Decidiram olhar pela janela. Subiram um guindaste, e por entre as árvores era possível ver somente um gato. Chamaram mais uma vez. Apenas o gato reagiu, fugindo. Decidiram que era necessário realmente arrombar a porta, e assim o fizeram. Depois que a fumaça da pesada madeira ter sido jogada contra um chão empoeirado, veio a surpresa: o homem estava lá, sentado em sua poltrona como se estivesse dormindo. Aproximaram-se dele, mas o mau cheiro já denunciava se tratar ali de uma alma que abandonou um corpo. O homem estava já sem cores e gelado. No bolso do peito de seu sobretudo, uma carta amassada. "Amo você", havia escrito. Parecia ser suicídio. O corpo foi retirado com cuidado e envolto em plástico preto especial para remoção de cadáveres em estado de decomposição. Todo o prédio ficou chocado. Há quem dissesse que não achava surpresa que um suicídio viesse de alguém tão estranho. O corpo foi levado para necrópsia e o quarto varrido pela perícia. Algumas caixas de charuto pelo chão, mas era improvável que o tabaco fizesse aquilo. Muito depois foi descoberta sua pneumonia, mas ela ainda estava em estado inicial. A maior suspeita é de que ele havia tomado alguns comprimidos de um forte calmante, conforme as caixas no lixo denunciavam. "Talvez uma overdose letal do sonífero tarja preta", era escrito no relatório da perícia. Livros intocáveis e plastificados em sua grande biblioteca; os pratos estavam no escorredor. Tudo muito limpo, não fosse a natural sujeira de poeira que a cada dia obriga às atividades cotidianas as donas de casa. Tentou-se levantar alguma informação nos arredores do local, mas ninguém sabia de nada. Apenas impressões sombrias sobre o homem foram levantadas pelo senso comum local. "Será que ele praticava magia negra?" Se perguntava um pastor do andar de cima. Logo famílias, com medo de alguma maldição, se mudavam daquele prédio. A dúvida em torno do caso começou a ser dissolvida com o relatório do psiquiatra que o visitara alguns dias antes. Mas o fato esclarecedor foi sem dúvida a carta de resposta de uma jovem senhora, já a uma semana depois do incidente.  Caso concluído.

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