domingo, 10 de junho de 2012

Para compreender a genealogia do sofrimento



Você já se perguntou sobre qual a origem do seu sofrimento quando você está sofrendo? Eu já. E tenho uma teoria. Na verdade, é preciso ser explicada como uma parábola. Toda situação propensa a nos causar alegria ou felicidade tem um objetivo. Simplesmente o sentir por sentir não faz sentido, é preciso sentirmos por conta de alguma coisa. Então pense que há 3 etapas em uma dada situação. O início, aonde decidimos se vamos ou não aceitar o caminho da situação para chegarmos a um objetivo, o meio, aonde se dá a trajetória entre nossa decisão inicial e o objetivo, e o final, aonde encontra-se o objetivo propriamente dito.

Pense num túnel aonde só cabe você. Esse túnel pode ter distâncias variadas, pois isso vai depender do caminho que você precisa percorrer para alcançar o objetivo. Mas você ainda se encontra no início da situação. Está se perguntando se a aceita ou não, refletindo, usando o coração também. Nesse momento, o início, você sabe que tem um túnel que deve percorrer, mas não faz ideia do tamanho dele. E os motivos que te fazem decidir se você aceita ou não o desafio estão sempre no objetivo. Portanto, o objetivo determina o esforço e é sua escolha, fazendo um balanço entre a importância do objetivo na sua vida, considerando razões e/ou emoções, que vai definir se você vai passar por essa provação ou não.

E então você decide entrar no túnel. Isso significa que você aceitou a situação e está disposto a encará-la para chegar ao objetivo desejado. E então você se encontra já na segunda etapa de nossa parábola. O caminho para o objetivo não é limpo, ou seja, você não segue confortavelmente, sem obstáculos. Além desses obstáculos, há sempre vestígios, ou "musgos" do túnel, que possuem a potencialidade de inflar os sentimentos sobre o objetivo. Esses sentimentos não possuem uma direção pre-estabelecida. Mas muitas vezes eles nos trazem dúvidas, porque estamos dentro do túnel nos esforçando tanto e a luz do final dele ainda não apareceu. Se passarmos a nos sentir inseguros sobre nosso alcance desse objetivo, esses musgos vão tocando a gente cada vez mais e inflando nosso sentimento. Apesar de não serem decisivos, esses musgos/vestígios do caminho têm função de reforçar em algum grau o que estamos pensando, seja a convicção de que esta luz do objetivo vem ou se não vamos conseguir. E nessa jornada, passamos a ter pensamentos que se distorcem da realidade, porque simplesmente estamos sozinhos no escuro apenas dependendo de crenças. É aí que as súplicas à intervenção sobrenatural costumam ser apropriadas por religiosos. O sofrimento parece vir dessa dúvida, nesse momento sombrio, sobre o alcance ou não desse objetivo. Mas ele não é o maior de todos. Descobrimos que o tamanho de nosso sofrimento vem antes do túnel.

Quanto mais fundamental for o objetivo para nós (nós decidimos isso ainda na etapa inicial, antes de entrar no túnel, quando estávamos pensando o quanto esse objetivo é importante para nós), de grande valor será a recompensa quando o alcançarmos, por um lado, mas também será a nossa maior fonte de tristeza quando não o conquistamos, por outro. Perplexidade e fé, medo e coragem se digladiam no túnel para lidar com o sofrimento, que foi plantado ainda antes de entrarmos nele.

O que vai fazer com que aguentemos ou não essa jornada será a nossa subjetividade. A salvação para o sofrimento, plantado desde o início pelo nosso desejo do objetivo e acrescido pelos musgos está em vários lugares. Sobressaem como os mais comuns as instituições sociais específicas como religiões ou locais de cura mediados pela ciência. Mas existem outras maneiras, também, que são procuradas por quem não frequenta esses espaços: nesse caso a maneira de lidar com o sofrimento está entre amigos, livros, músicas, meditação, ou mesmo dentro de si mesmo. Para aquele que quer curar-se dependendo somente de si, no entanto, é preciso antes estar com a mente preparada. 

O sucesso para alcançar o objetivo, e consequentemente para superar o sofrimento que vem caso de descobrimos que estamos proibidos dele, deve estar no modo como estamos lidando com ele mesmo. Está na relevância desse objetivo para as nossas vidas. Uma vez percebendo isso, cabe a nós encontrarmos algum lugar que nos salve quando deixamos, por um motivo ou outro, que esse objetivo seja nossa razão de viver. Só resistindo e sobrevivendo, com todas as perplexidades e medos que os musgos do túnel acrescem sobre nós durante a jornada, é que teremos alguma chance de vermos a luz que tanto queremos encontrar. A luz do objetivo. A luz de nossa satisfação na situação inserida.

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