sábado, 19 de novembro de 2011

Os Bons Sonhos que Tornam a Vida da Gente Infernais

Não se sabe ao certo o quão maldito um sonho é. E obviamente não falo aqui dos sonhos que provocam objetivos, mas aqueles que provocam sentimentos. O tal do sonho prático.

Deus, não bastava o tempo todo passando a acreditar num sentimento de dependência? Assim que minha consciência me liberta e eu pareço encontrar a serenidade que precisava, veio a madrugada e sua criatividade tomou conta de todo o espaço de tempo que eu tenho desde o momento que fecho os olhos até os que eu abro. Não se sabe ao certo a origem dos sonhos. Não se pode apenas atribuir à experiência da vida prática. Afinal, qual o sentido dos pesadelos dos bebês? Sempre tem algo a mais que torna intensas as coisas familiares a nós. O sonho deve ser o meio de algo latente, uma verdade ou mentira embutida na consciência.

Mas  nem sempre as coisas são reais. A propósito, quase nunca são. A propósito, um sonho é tão um fato não-realizado que se conceitua como uma potencialidade, uma possibilidade, uma esperança, um desejo. Não existem sonhos que retratem o que existe de verdade. Mas sonhos podem mudar uma realidade. Essa é a metáfora para aqueles que vão atrás de seus sonhos.

Nos últimos meses, mais forte ainda nos últimos dias, os sonhos tem se tornado uma maldição. Volta e meia eu sonho contigo. Volta e meia eu tenho contato contigo da maneira que eu queria ter de verdade. Só no sonho eu consigo de fato encontrar uma realidade desejável perante a ti, o que me fez querer dormir muito por um tempo. A verdade, no entanto, é muito mais fria. A verdade é que não passa de paixão. A paixão é, invariavelmente, a distorção da realidade. Uma supervalorização baseada na força de desejo que temos sobre alguém ou alguma coisa. A paixão brota de vários lugares, mas tenho minhas desconfianças de que ela se dá melhor projetada durante os sonhos. E ultimamente eles têm aprontado tanto comigo... Deus, o que é o sonho?  Bom ou ruim? Não sei. Vai ver ele nem se pauta por isso. Existem sonhos bons e pesadelo e não tem como o que eu sonho contigo seja um pesadelo. Mas torna pesadelo a vida desperta, racional, sem o domínio da paixão, ou pelo menos sem a paixão aflorada pela minha crença de que nada existe mais.

Desculpa tentar entender o que eu sinto. Não sei até que ponto os sonhos mentem pra mim.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Reabilitação

Esta droga de comida foi minha benção nos últimos tempos. Sabe, eu devia aceitar cada colherada como se fosse a última.
Eu devia preparar minha própria forca.
Eu devia tentar arrancar essas asas que perderam a razão em funcionar.
Eu devia mesmo fazer o que eles querem.

Mas não sou tão fácil assim de aceitar as determinações. Não depois de eu provar pra mim mesmo (e até sinto vergonha disso) que os meus valores são os mais limpos diante dessa lama toda ao meu redor que é esse império quilométrico. Eu tenho uma razão de existir, eles não entendem.
Porque simplesmente não lhes convém.

O mundo começa agora, de colherada em colherada. Me alimento da insatisfação. Ela me impulsiona sempre pra frente, pra que eu nunca mais tenha de olhar pra trás. 

Não amo quem achava que amava, na verdade amo mas não da maneira comum. Eu e ela teríamos uma vida arriscada. Eu me escravizaria novamente só pra fazê-la sorrir. Agora eu posso fazer o mundo todo sorrir, se eu quiser. E não ter de viver em função de pedir sempre alguma coisa em troca. Esse amor verdadeiro só é prejudicial se eu permitir. A escolha é minha. Opressora do jeito que é, mas é a minha vez, a minha maior liberdade. Eu escolhi ser insatisfeito.

- Que diabos está acontecendo aqui? Está tudo desmoronando! Supervisionem os prisioneiros nas masmorras!

Não preciso de fenômenos da natureza pra me deixar que o clima determine minha ação diária. Não mais. Fui eu que bolei esse plano, juntei as possíveis vantagens, me antecipei. Daqui, as coisas só dão certo com muito esforço e pouca deliberação. Os meios se tornaram mais importantes que os fins, ainda que os fins sejam sempre os objetivos de todos os meios. Me impressiona a vontade do instinto, a liberação dos sentidos nos torna mais humanos e menos máquina. Isso é garantia de felicidade alguma? Que felicidade? Essa eu só descobrirei depois de ter caminhado.
A vida começa agora.

- Atenção todas as unidades! Está tudo inundando, vamos todos embora daqui!
- Mas capitão, e os detentos?
- Eles não possuem asas, deixem que sofram!

O desespero nunca espera a esperança. A esperança está na serenidade de enxergar o caminho correto dentro do labirinto do desespero. Por sorte, meu planejamento não foi descoberto por eles ainda. Tem uma porta que só eu sei que os asas-cortadas se salvariam. E lá fui eu em busca de liberdade.

Meu maior conforto agora é compreender que eu não tenho mais certeza do que é bom ou o que é ruim. O que é certo e o que é errado. Não existe pressão. Não aceito mais regras. Daqui só a minha morte é quem determina algo sobre mim. E enquanto todos estão lá embaixo tentando resolver esse vazamento hidráulico, eu, aqui do alto da montanha de concreto, abro um sorriso e fecho os olhos para o destino. Agora sou só eu e você, companheiro.

Há muita coisa a se fazer. E eu sou o dínamo.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

afeto e efeito

Me deram uma vida, mas eu ainda não percebi.
Estou vivendo talvez em modo automático.
Mas aos poucos eu vou enxergando que existem coisas que dependem de mim
E então tudo ao meu redor é passível de mudanças mediante pequenas doses de intervenção.
Isso se chama existência.

Não sei o que é, apenas vejo que há e aprendo que viver não é perceber e contemplar.

E é por isso que nos dão vida, mas ainda nem percebemos.
Talvez eu desligue mesmo esse piloto automático.
É que das minhas tentativas de intervir no destino, poucas realmente foram de sucesso!
Mas a vida em automático é muito pior; deixamos os outros viverem por nós quando não arriscamos.

Veja bem, é tão ruim ter de calar-se para quem a gente ama por achar que não temos mais nada a lhe dizer...
E por isso tudo o que eu sinto é transformado em música.

Existimos não só pelo fato de sermos alguém no mundo.
Existimos porque fazemos o mundo acontecer
Somos aquilo que afetamos ao nosso redor
E com todo esse afeto e pouco efeito, eu insisto em dizer:
desesperadamente paciente eu te amo.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sentenciado.

- Abram as portas da comunidade!
- Quem se aproxima daquele horizonte com as asas cortadas?
- Ora, é o nosso bastardo hominídeo que pensou tudo poder!
- Tragam-lhe água, eis que ele vem se arrastando com os pés encaliçados. O Mestre vai gostar de ver sua desgraça!

E no caminho de volta àquela situação, que tanto se tentou ficar distante, abriu-se em portas para recebê-lo com gargalhadas nas suas guaritas.

- O que aconteceu, Zangão? Você não estava determinado? 
- Porque voltou tão cedo? Desistiu no meio do caminho?

E o cansado maltrapilho choroso, contudo ignorando os fatos, adentrou na comunidade que lhe sentenciara por ter de ir embora.
Imediatamente se fizeram os preparativos para o Mestre recebê-lo. Houve quem lhe oferecesse abrigo para limpar-se antes de a próxima sessão acontecer. Ele negou, contudo. Fora o primeiro a sentar na cadeira da Assembleia dos Zangões-Hominídeos.

O Mestre não tardara em retornar. Diante de todos aqueles que se faziam emocionalmente manifestados em criticar o réu, foi o mais cauteloso. E ao se fazer silêncio, começou a bradar:

- Vejo que retornastes à casa que negastes abrigo. Que fazes aqui, cidadão negador? Há menos de cinco viradas de sol que tu saíste com a cabeça erguida e convicto de que deveria se lançar às paixões do lado de fora de nossa fortaleza! Acaso sentisses o calor do deserto? Sentiste fome durante o percurso? Ou será que não alcançasse teu verdadeiro objetivo quando da tua ida?

- Senhor Mestre, eu estou de volta contra a minha vontade. Mas não há como buscar uma razão que simplesmente não existe. O meu salto impulsionador simplesmente já não salta. Minhas asas perderam energia com isso. O meu objetivo de vida foi deslocado.

- Então você sofreu o pior dos males, não foi? Eu te adverti tanto, pequeno homem! E mesmo assim você quis seguir em frente. Bem, eu não vou me perdurar nessas críticas. Você sabe exatamente que têm consequências nesta comunidade. Penalizo-o com a detenção por tempo indeterminado, sem livros de romances, sem músicas de amor, sem a humanidade que dizes carecer. Esta, por si só, já se mostrou não estar do teu lado. Agora aprenda a viver novamente em nosso casulo, aprendendo que os dias têm lógica.

- Não sou covarde em não cumprir suas ordens, Mestre. Mas permita-me fazer uma ressalva antes de entrar nesse purgatório. Eu não me arrependo de ter tentado. Eu realmente, nessa vida, não sou feliz. Não me sinto obrigado a ter de ser feliz aqui, apesar de saber que viver em tristeza pode levar à loucura. Não sei mais qual é o meu foco para atingir algum grau de felicidade, mas eu não vou desistir. Jamais desistirei e a única coisa que me fez voltar para este casulo é porque não existe mais nenhum outro lugar a quilômetros perto daqui onde eu possa encontrar felicidade. Sei exatamente que procurá-la por perto, portanto, é em vão. Mas eu dou a volta por cima. Eu posso não saber controlar meu coração, mas sei controlar a minha mente. E se ambos estão inseparáveis, não há nada que aconteça que eu não queira. Pagarei a pena, mas se isso é pré-requisito para que eu volte a ser o que todos aqui são, convencidos demais de que este é o melhor lugar, o senhor está enganado. Posso até ter vida boa aqui pelo resto de meus dias, mas a minha inquietação, de fato, é o que vai me fazer querer continuar vivendo. Que venham os guardas. Eu aceito de cabeça erguida por saber que estarei aprendendo nos próximos dias muito mais do que eu aprendi essa vida toda trancafiado aqui. A perca me deu a dialética para vitória. E esta se resume em nunca me satisfazer com as coisas que eu NÃO conquistei.

Levado pelos demais vizinhos ao purgatório, olhado com maus olhos pelo Mestre, ele se foi cumprir sua pena tranquilo enquanto toda a assembleia estivera em confusão. E foi assim que a história chegou ao fim.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Condenado.


Na aldeia dos zangões-hominídeos, um julgamento incomum perante toda a comunidade.


Responda pelo seu crime antes que eu deflagre sua punição! Esta é a sua última chance.

Mestre, talvez seja sim uma vontade do ego. Mas antes eu a realizo por dar uma chance ao que insisto em acreditar apesar de todos os desacertos. Do contrário, não sentiria mesmo sentido na vida. Se nosso destino é viver em prol da desumanização, então não há de fato sentido humano para nós, humanos. Ora, o que faz uma vida se tornar mais satisfatória em acontecer não é justamente o seu devir sob um desejo e a possibilidade dele existir? O que seria de nós se não houvessem sonhos a ser sonhados? A conquista faz parte, ela está além da competitividade, e é intrínseca ao ego. Agora me diz: o que é viver sem o próprio ego? Há vida sem vontades? Mestre, retire-me o ego e o senhor estará cometendo o mais desumano dos crimes. Não haverá mais vida a ser vivida. O egoísmo, esse sim, é um mal a ser combatido. Mas que mal há em querer dar uma chance a mais com apenas um copo de ego? Com tanto oceano no mundo inundado corações e mentes, instaurando conflitos e dominando regiões, eu só quero o que eu acredito ser suficiente para ser feliz. Não roubei de ninguém. Criei de mim mesmo, moldando-o com as realidades com as quais eu tenho presenciado. Aprendi, dei passos atrás, até renunciei-me em busca de uma razão na vida... E agora volto para o início. Estou de volta à intuição, ao instinto humano. Acho que agora eu imagino que eu prefiro suas imperfeições à busca imperfeita de algo em que não há erros. Pelo menos o objetivo é, para mim, o mais nobre de todos. E tudo aquilo que eu fui fiel em acreditar pode estar agora comprometido. Diante de todas as alusões dicotômicas que se fazem na nossa vida, correr riscos ou estar em segurança talvez seja a mais decisiva delas. Eu, que fui tão contra a paixão, agora quero me embriagar dela. Talvez eu reaprenda a andar tudo de novo, mas sem os mesmos caminhos. Não quero desgastar meus pés num chão já conhecido. Quero novos horizontes, novas situações, novas realidades e sobretudo uma nova chance à vida. Talvez eu descubra que haja jeito no mundo por revolucioná-lo através do amor. Eu só quero ser feliz e penso que pra isso eu preciso compartilhar minha felicidade com outros seres. Seria eu culpado portanto em querer dar-me uma chance a mais à própria vida? 

Caro réu, considerando a acusação de que você está saindo do casulo por sua própria conta e risco em busca de um objetivo eminentemente seu, e principalmente ciente de que tal casulo jamais poderá ser o mesmo ponto de segurança que você um dia projetou em sanidade tão ciente quanto agora, não me resta outra razão a não ser julgá-lo conforme os fatos determinam. Portanto, eis a sentença mais intensa de todas: você está condenado a viver em busca de felicidade, pois a sua felicidade não se encontra mais nesse lugar. Vá embora. E se voltar um dia, pagará com a pior das penas: estará detento por tempo indeterminado, sem livros de romances, sem músicas de amor, sem, por fim, a humanidade que tanto pregas estar carecendo agora. Dito isto, exijo que se cumpra imediatamente. Se para ti não há amor nesta comunidade, vá em busca dele! Mas nunca mais espere que esta comunidade ame-o como antes. Sessão Concluída!

E ele se foi com as asas mais abertas que podia um zangão comum alcançar.

Deus queira que essa história não tenha continuação.