sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Reabilitação

Esta droga de comida foi minha benção nos últimos tempos. Sabe, eu devia aceitar cada colherada como se fosse a última.
Eu devia preparar minha própria forca.
Eu devia tentar arrancar essas asas que perderam a razão em funcionar.
Eu devia mesmo fazer o que eles querem.

Mas não sou tão fácil assim de aceitar as determinações. Não depois de eu provar pra mim mesmo (e até sinto vergonha disso) que os meus valores são os mais limpos diante dessa lama toda ao meu redor que é esse império quilométrico. Eu tenho uma razão de existir, eles não entendem.
Porque simplesmente não lhes convém.

O mundo começa agora, de colherada em colherada. Me alimento da insatisfação. Ela me impulsiona sempre pra frente, pra que eu nunca mais tenha de olhar pra trás. 

Não amo quem achava que amava, na verdade amo mas não da maneira comum. Eu e ela teríamos uma vida arriscada. Eu me escravizaria novamente só pra fazê-la sorrir. Agora eu posso fazer o mundo todo sorrir, se eu quiser. E não ter de viver em função de pedir sempre alguma coisa em troca. Esse amor verdadeiro só é prejudicial se eu permitir. A escolha é minha. Opressora do jeito que é, mas é a minha vez, a minha maior liberdade. Eu escolhi ser insatisfeito.

- Que diabos está acontecendo aqui? Está tudo desmoronando! Supervisionem os prisioneiros nas masmorras!

Não preciso de fenômenos da natureza pra me deixar que o clima determine minha ação diária. Não mais. Fui eu que bolei esse plano, juntei as possíveis vantagens, me antecipei. Daqui, as coisas só dão certo com muito esforço e pouca deliberação. Os meios se tornaram mais importantes que os fins, ainda que os fins sejam sempre os objetivos de todos os meios. Me impressiona a vontade do instinto, a liberação dos sentidos nos torna mais humanos e menos máquina. Isso é garantia de felicidade alguma? Que felicidade? Essa eu só descobrirei depois de ter caminhado.
A vida começa agora.

- Atenção todas as unidades! Está tudo inundando, vamos todos embora daqui!
- Mas capitão, e os detentos?
- Eles não possuem asas, deixem que sofram!

O desespero nunca espera a esperança. A esperança está na serenidade de enxergar o caminho correto dentro do labirinto do desespero. Por sorte, meu planejamento não foi descoberto por eles ainda. Tem uma porta que só eu sei que os asas-cortadas se salvariam. E lá fui eu em busca de liberdade.

Meu maior conforto agora é compreender que eu não tenho mais certeza do que é bom ou o que é ruim. O que é certo e o que é errado. Não existe pressão. Não aceito mais regras. Daqui só a minha morte é quem determina algo sobre mim. E enquanto todos estão lá embaixo tentando resolver esse vazamento hidráulico, eu, aqui do alto da montanha de concreto, abro um sorriso e fecho os olhos para o destino. Agora sou só eu e você, companheiro.

Há muita coisa a se fazer. E eu sou o dínamo.

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