Na aldeia dos zangões-hominídeos, um julgamento incomum perante toda a comunidade.
Responda pelo seu crime antes que eu deflagre sua punição! Esta é a sua última chance.
Mestre, talvez seja sim uma vontade do ego. Mas antes eu a realizo por dar uma chance ao que insisto em acreditar apesar de todos os desacertos. Do contrário, não sentiria mesmo sentido na vida. Se nosso destino é viver em prol da desumanização, então não há de fato sentido humano para nós, humanos. Ora, o que faz uma vida se tornar mais satisfatória em acontecer não é justamente o seu devir sob um desejo e a possibilidade dele existir? O que seria de nós se não houvessem sonhos a ser sonhados? A conquista faz parte, ela está além da competitividade, e é intrínseca ao ego. Agora me diz: o que é viver sem o próprio ego? Há vida sem vontades? Mestre, retire-me o ego e o senhor estará cometendo o mais desumano dos crimes. Não haverá mais vida a ser vivida. O egoísmo, esse sim, é um mal a ser combatido. Mas que mal há em querer dar uma chance a mais com apenas um copo de ego? Com tanto oceano no mundo inundado corações e mentes, instaurando conflitos e dominando regiões, eu só quero o que eu acredito ser suficiente para ser feliz. Não roubei de ninguém. Criei de mim mesmo, moldando-o com as realidades com as quais eu tenho presenciado. Aprendi, dei passos atrás, até renunciei-me em busca de uma razão na vida... E agora volto para o início. Estou de volta à intuição, ao instinto humano. Acho que agora eu imagino que eu prefiro suas imperfeições à busca imperfeita de algo em que não há erros. Pelo menos o objetivo é, para mim, o mais nobre de todos. E tudo aquilo que eu fui fiel em acreditar pode estar agora comprometido. Diante de todas as alusões dicotômicas que se fazem na nossa vida, correr riscos ou estar em segurança talvez seja a mais decisiva delas. Eu, que fui tão contra a paixão, agora quero me embriagar dela. Talvez eu reaprenda a andar tudo de novo, mas sem os mesmos caminhos. Não quero desgastar meus pés num chão já conhecido. Quero novos horizontes, novas situações, novas realidades e sobretudo uma nova chance à vida. Talvez eu descubra que haja jeito no mundo por revolucioná-lo através do amor. Eu só quero ser feliz e penso que pra isso eu preciso compartilhar minha felicidade com outros seres. Seria eu culpado portanto em querer dar-me uma chance a mais à própria vida?
Caro réu, considerando a acusação de que você está saindo do casulo por sua própria conta e risco em busca de um objetivo eminentemente seu, e principalmente ciente de que tal casulo jamais poderá ser o mesmo ponto de segurança que você um dia projetou em sanidade tão ciente quanto agora, não me resta outra razão a não ser julgá-lo conforme os fatos determinam. Portanto, eis a sentença mais intensa de todas: você está condenado a viver em busca de felicidade, pois a sua felicidade não se encontra mais nesse lugar. Vá embora. E se voltar um dia, pagará com a pior das penas: estará detento por tempo indeterminado, sem livros de romances, sem músicas de amor, sem, por fim, a humanidade que tanto pregas estar carecendo agora. Dito isto, exijo que se cumpra imediatamente. Se para ti não há amor nesta comunidade, vá em busca dele! Mas nunca mais espere que esta comunidade ame-o como antes. Sessão Concluída!
E ele se foi com as asas mais abertas que podia um zangão comum alcançar.
Deus queira que essa história não tenha continuação.
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