- Quem se aproxima daquele horizonte com as asas cortadas?
- Ora, é o nosso bastardo hominídeo que pensou tudo poder!
- Tragam-lhe água, eis que ele vem se arrastando com os pés encaliçados. O Mestre vai gostar de ver sua desgraça!
E no caminho de volta àquela situação, que tanto se tentou ficar distante, abriu-se em portas para recebê-lo com gargalhadas nas suas guaritas.
- O que aconteceu, Zangão? Você não estava determinado?
- Porque voltou tão cedo? Desistiu no meio do caminho?
E o cansado maltrapilho choroso, contudo ignorando os fatos, adentrou na comunidade que lhe sentenciara por ter de ir embora.
Imediatamente se fizeram os preparativos para o Mestre recebê-lo. Houve quem lhe oferecesse abrigo para limpar-se antes de a próxima sessão acontecer. Ele negou, contudo. Fora o primeiro a sentar na cadeira da Assembleia dos Zangões-Hominídeos.
O Mestre não tardara em retornar. Diante de todos aqueles que se faziam emocionalmente manifestados em criticar o réu, foi o mais cauteloso. E ao se fazer silêncio, começou a bradar:
- Vejo que retornastes à casa que negastes abrigo. Que fazes aqui, cidadão negador? Há menos de cinco viradas de sol que tu saíste com a cabeça erguida e convicto de que deveria se lançar às paixões do lado de fora de nossa fortaleza! Acaso sentisses o calor do deserto? Sentiste fome durante o percurso? Ou será que não alcançasse teu verdadeiro objetivo quando da tua ida?
- Senhor Mestre, eu estou de volta contra a minha vontade. Mas não há como buscar uma razão que simplesmente não existe. O meu salto impulsionador simplesmente já não salta. Minhas asas perderam energia com isso. O meu objetivo de vida foi deslocado.
- Então você sofreu o pior dos males, não foi? Eu te adverti tanto, pequeno homem! E mesmo assim você quis seguir em frente. Bem, eu não vou me perdurar nessas críticas. Você sabe exatamente que têm consequências nesta comunidade. Penalizo-o com a detenção por tempo indeterminado, sem livros de romances, sem músicas de amor, sem a humanidade que dizes carecer. Esta, por si só, já se mostrou não estar do teu lado. Agora aprenda a viver novamente em nosso casulo, aprendendo que os dias têm lógica.
- Não sou covarde em não cumprir suas ordens, Mestre. Mas permita-me fazer uma ressalva antes de entrar nesse purgatório. Eu não me arrependo de ter tentado. Eu realmente, nessa vida, não sou feliz. Não me sinto obrigado a ter de ser feliz aqui, apesar de saber que viver em tristeza pode levar à loucura. Não sei mais qual é o meu foco para atingir algum grau de felicidade, mas eu não vou desistir. Jamais desistirei e a única coisa que me fez voltar para este casulo é porque não existe mais nenhum outro lugar a quilômetros perto daqui onde eu possa encontrar felicidade. Sei exatamente que procurá-la por perto, portanto, é em vão. Mas eu dou a volta por cima. Eu posso não saber controlar meu coração, mas sei controlar a minha mente. E se ambos estão inseparáveis, não há nada que aconteça que eu não queira. Pagarei a pena, mas se isso é pré-requisito para que eu volte a ser o que todos aqui são, convencidos demais de que este é o melhor lugar, o senhor está enganado. Posso até ter vida boa aqui pelo resto de meus dias, mas a minha inquietação, de fato, é o que vai me fazer querer continuar vivendo. Que venham os guardas. Eu aceito de cabeça erguida por saber que estarei aprendendo nos próximos dias muito mais do que eu aprendi essa vida toda trancafiado aqui. A perca me deu a dialética para vitória. E esta se resume em nunca me satisfazer com as coisas que eu NÃO conquistei.
Levado pelos demais vizinhos ao purgatório, olhado com maus olhos pelo Mestre, ele se foi cumprir sua pena tranquilo enquanto toda a assembleia estivera em confusão. E foi assim que a história chegou ao fim.
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