terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Pessoas que se (des)encontram

Eis a façanha do senhor dos destinos: tramar para nós o intramável, intervir no tempo do improvável, definir os limites do provável, legitimar o impossível e fazer-nos de marionetes. Quando pensamos que somos os donos de nosso presente, passado e futuro, ele nos revela a pouca força que temos com revelações sobre coisas que não eram como achávamos que eram, sobre o que somos agora e sobre o que há de vir depois. A única coisa que podemos fazer por nós mesmos é dar tempo ao tempo.

Assim é com os relacionamentos. Os que dão e os que não dão certo, os que requerem tempo para serem processados pelos indivíduos participantes, os que são estragados por besteiras.
E sempre judiamos consigo mesmos ao uso do advérbio "TALVEZ".

"Talvez eu tenha me dedicado à pessoa errada no momento certo, talvez eu tenha falado pra pessoa certa no momento errado." Bem, sabemos que isso jamais iremos saber. Só o tempo, o senhor do destino, é quem pode corroborar ou desvalidar nossas inquietações a respeito disso. A grande questão é: se sabemos que não temos mais o direito de intervir, pra quê viver querendo mandar no in-mandável? Só podemos agir até um determinado ponto. O resto é efeito, consequência, esperança. E nada disso promete que vai ser realizado ou negado.

Pessoas se encontram e se desencontram em todos os lugares, a todos os momentos, em todas as situações. Abrir os olhos a quem está ao nosso lado ou ao outro lado do mundo é uma façanha que só descobriremos quando o destino quiser que descubramos. Semear não significa necessariamente colher os produtos desejados. E se colhermos da forma que pensamos, pode ser que não seja, para nós, os adequados.

Aquele ser com que prezamos com o adjetivo de "meu amor", "seu amor", pode estar em muitos lugares, em muitos momentos.

Pode ser alguém que você conheceu ontem.
Pode ser alguém que você conhecerá daqui a 10 anos.
Pode ser alguém que viva a metros de você.
Pode ser alguém que viva do outro lado da cidade, do país, do mundo.
Pode ser alguém que te acompanha por muito tempo e você não percebeu,
Pode ser alguém que nunca participou da sua vida antes.
Pode ser teu amigo, teu inimigo, teu vizinho, teu colega de trabalho, da escola, da fila do banco ou da crise existencial.

Apenas pode, e é algo que não temos força para evitar que seja.

Se vai ser sim ou não, deixe que o tempo resolva por você. O tempo prega peças em nós, é preciso ter em mente este mais perfeito aforismo. A verdade é que nós nunca saberemos o que estará por vir para nós. Isso está além do alcance dos olhos de qualquer ser humano. Contentemo-nos a isso, e aprendamos a ser pacientes.

Quer saber? Gostando ou não, surpresas são as melhores coisas que podem realmente acontecer ao ser humano. 

Que assim seja, então.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O declínio do sentido da arte pela arte na contemporaneidade

A arte, de uma maneira geral, tem sua relevância no mundo a partir da relação com a sociedade que a sustenta. Dessa forma, em periodos bucólicos, é comum a valorização à arte bucólica. Em períodos cujos agentes históricos são sobretudo o povo burguês, o romantismo mediado pelo tema do ócio também ganha força e centralidade entre os poetas. Diante das ideias de progresso e racionalidade, o parnasianismo e a reprodução fiel entram em cena; e durante as guerras e demais conflitos nacionais, a arte ganha caráter de protesto e de denúncia. Em outras palavras, o uso que se faz da arte época por época é capaz de definir características da própria sociedade em curso.

Tendo em vista essa relação, como a arte se comporta na contemporaneidade? Tirando o fato de que as relações dinâmicas as quais estamos visualizando em uma grande velocidade e a nivel global nos fazem ter dúvidas imensas sobre o que se mantém e o que se dissolve pela ligeireza das nossas experiências, uma coisa é certa: a (r)evolução promovida pela globalização atinge todos os modos de vida do planeta, inclusive na produção do campo da arte.

Devemos o avanço global à tecnologia atrelada à ciência, culminando com a Internet (pelo menos nos 50 anos  iniciais de globalização). Na internet, aonde dependemos menos da televisão para escolher-nos o que deve ser consumido e o que deve ser ignorado, vemos nascer em todas as regiões artistas muito talentosos em diversos campos da arte (atores, diretores de cinema, músicos, pintores, desenhistas etc.). A questão que interessa não é saber necessariamente o que a arte produz para representar a vida globalizada, pois este fenômeno é tão recente que provavelmente artistas do mundo todo ainda não conseguiram oferecer uma representação digna de "globalização" a ponto de ser eleita como a tradução de nossa época.

O que importa realmente questionar é como as tecnologias tem modificado profundamente não só as possibilidades de comunicação, informação e deslocamento in the whole world, mas a arte em si.

A impressão básica que se tem é que a arte pela arte começa a perder o sentido justamente onde carece de sentido. O contato com inúmeras formas artísticas ao longo da vida globalizada faz com que a produção de arte tenha sido massificada. (Talvez, na verdade, tenha sido sempre assim. Poderiam sempre ter existido outros DaVincis; o fato de não pertencer à cultura européia ou não dotarem de capital social poderia ter feito desses artistas desconhecidos inexistentes para sempre). Uma vez massificada, é possível encontrar a arte em todos os lugares, falando de todas as coisas, criada por todo tipo de gente que gosta de produzir arte. 

Quando digo que a arte passa a carecer de sentido nesse mar de informações, me refiro justamente por ela ter sentido demais; mas é um sentido quantitativamente determinado, aonde não há tendências a legitimações entre o que é a arte representante desta era global e o que não é. Nesse sentido, a pluralidade de produções que passamos a conhecer banaliza e apaga a tal "aura" do pensamento frankfurtiano do século XX.

O sentido da arte está voltado a seu próprio povo que produz. Além disso, produzimos coisas que são do outro lado do mundo. Existe arte de protesto na mesma medida da arte expressionista. É como se o mundo fosse uma grande tela, o artista fosse uma lata de tinta e a arte produzida fosse cacofônica e ruidosa, a ponto de não sabermos se a admiramos ou achamos tudo aquilo incrivelmente comum demais e, por isso mesmo, sem surpresa. Nesse sentido nem a arte mais bela ou a reprodução manual mais perfeita escapa da admiração rápida, ou até mesmo da falta de admiração.

O computador tem contribuído para isso. Desde que foi possível criar músicas, imagens, editar filmes, fazer a arte manualmente, sem a ajuda dessas técnicas, tem se tornado obsoleta. Repare na reprodução artística de uma pessoa, feita à mão. Coisas que há tempos admiraríamos, hoje poderemos achar bobagem e até perca de tempo, uma vez que essa mesma reprodução se dá quando usamos ferramentas do computador, em apenas alguns minutos.

O que quero dizer é que a arte pela arte está em fase de declínio, pois ela por si não tem como garantir a atenção daqueles que estão apaixonados pela tecnologia e pela capacidade de a tecnologia ajudar o homem comum a ser o melhor dos artistas apenas criando em Photoshop. Enquanto que os verdadeiros artistas, que estudam desde cedo os processos artísticos e se criaram desenvolvendo seu dom e praticando por anos, se veem obsoletos, pois o homem comum, pouco artista, sabe fazer o que o artista faz manualmente num programa de computador.

Para onde estamos indo, afinal?
Não sabemos ao certo, mas há coisas que sabemos que não acompanham a sociedade atual, e a arte pela arte é uma delas. Falar em globalização é falar em capitalismo. Tudo o que é conhecido mundialmente está atrelado às relações de lucro. Talvez a única saída ao artista em seu "tipo ideal" (puro, artista de mão, que não depende de softwares de imagem) seja justamente se agarrar a essas ferramentas para tentar de alguma forma sobressair sobre aqueles que fazem arte, mas não são tão artistas quanto em termos de qualidade. Além disso, a arte pela arte, aquela que se faz pra guardar em quadros ou deixar na gaveta da escrivaninha e mostrar só a quem está por perto está morrendo. É preciso refuncionalizar a arte, da mesma forma que a passagem da arte parnasiana para a da época seguinte no século XX (simbolismo, modernismo). Não sabemos que corrente estes artistas estarão contribuindo a construir, mas se manter contra a maré simplesmente é resignar sua arte pela arte ao esquecimento. Serão mais artistas como aqueles DaVincis esquecidos.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sonhos pós-modernos


Um dia de sol escaldante nas tarde de domingo é de convidar qualquer um a cair na praia de águas radiantes bem em frente ao apartamento. No entanto, não há amigos por perto no momento. Todos estão no quarto, numa tela brilhante cujas frases, sons e símbolos de expressão dão o tom da conversa. E lá está ela, sorrindo sozinha naquele quarto escuro protegendo-se do calor com ar condicionado em nível máximo de refrigeração e ignorando a existência do sol. A pele branquíssima denuncia: faz tempo que não determina a douração pelo bronzeamento natural.

Todos os fins de semana e feriado têm sido assim. Durante a semana, quando trabalha, compartilha com todos os amigos online através de mensagens rápidas os sentimentos e os desejos de que venham logo os feriados e os dias de folga. E ao chegarem tais dias, separa os momentos entre a faxina e a atenção ao computador. De vez em quando divide o instrumento interacionista com a TV, quando passa aquele seriado tão esperado em HD. Quando lhe vem à cabeça o sentimento de ausência, faz um telefonema e logo está reabilitada novamente a permanecer o resto do dia explorando a própria liberdade individual. Não há marido nem namorado. O filho está com o Ex, na outra cidade e só vem em tempos de reunião familiar. Qualquer dúvida a respeito da segurança de si é obliterada em livros de auto-ajuda que comprou na feira do Movimento Hare Krishna que se instalou ano passado em um stand do shopping ali perto. A cultura global, o acesso imediato às informações de todo o mundo, a presença virtual dos amigos de longa distância são pílulas da atualidade cujas doses enfrentam as enfermidades que outrora surgem no ser. São coisas dos tempos pós-modernos.

Ela cresceu com novas ideias que entraram na moda com a humanidade globalizada: o sentimento de liberdade foi estabelecido e você pode ser o que quiser, até quem você não é, a partir das chances que aproveita nas inúmeras possibilidades de vidas que consegue criar na rede. Combinado a isso, você precisa ser vista com certa sobressaliência no mundo online para ser reconhecida nas ruas. Para tanto, confessar é preciso. Uma ausência de atualização em alguma mídia social e você tem atenção pulverizada. Nessas necessidades atuais de presença do ser contínua e interligada, onde tudo é consumido numa velocidade estonteante, não basta apenas a qualidade do que você compartilha – é preciso sempre mais. Marcar o território com os dejetos da mente e até excessos são permitidos. Para além do cotidiano, a filosofia manda você buscar a felicidade individual em detrimento à dependência dos outros, e você aprende a ser maliciosa. Enquanto os outros fingem que te enganam, você acredita que pode enganar eles com o troco perfeito. E eis que surge a última regra a ser obedecida nesse mundo aparentemente sem regras, confuso, pós-moderno: seja você e não seja ao mesmo tempo. Seja perfeita, mesmo que você não seja. Seja feliz, mesmo que você chore. Seja sincera, mesmo que isso seja uma mentira. Seja mentirosa, mesmo que tenhas aprendido que isso é um crime ético. Em outras palavras, tens a oportunidade perfeita de ser mais o que você quer que os outros pensem de você do que você é de fato. És livre como nunca. E se por ventura alguém não te interessa ou te procura demais, basta cortar o laço afetivo com um clique apenas. Se tudo é efêmero, os dias de hoje tem o prazo de validade do produto mais vulnerável. A aparência dita o novo tom da realidade, e você não precisa contar nada sobre os seus defeitos.

Ela costuma passar horas assistindo TV quando não quer conversar com ninguém. Zapeando de canal em canal, vê um documentário jornalístico sobre reflexões em torno do hoje. Aprende que a verdade é pura e simplesmente fragmentária. Tudo é desconstruído, histórias foram enterradas enquanto as sociedades tentam recriar sua própria explicação. Assim como as pessoas, só querem mostrar o que têm de bom. A tradição sobrevive com o dinheiro que obtém vendendo-se ao mundo, globalizando-se. O índio joga nos sites de vídeos depoimentos sobre sua cultura. As imagens substituem as mil palavras. A guerra mundial se tornou cotidiana, e aprendemos a odiar outros regimes que não seja esse capitalismo libertário, que parece ter acabado com as antigas relações de exploração do trabalhador. Mas tem um país ou outro que entra em recessão e muita gente desempregada morre matando.

Ela para um pouco pra pensar que não entende o que aquelas pessoas fazem, achando exagero elas acabando com a própria vida! Escreve alguma coisa no smartphone sobre o assunto e envia para as mídias sociais, para os outros perceberem-na como alguém que se interessa por política. Depois muda de canal e vai assistir a série americana que vai estrear e que viu na internet que estava cotada pra ser um sucesso mundial.

Ela está satisfeita com tudo o que tem. Seus pais lhe deixaram numa situação confortável: ganhou carro quando se formou, foi direto estagiar e é uma das mais conhecidas empregadas na empresa onde trabalha. Ganha bem, gasta com tecnologia e com idas frequentes ao  cinema. À medida que se individualiza comprando roupas novas e câmeras de última geração para fotografar o panorama que tem da janela do seu apartamento, lá de cima do prédio, imagina estar rompendo as barreiras que a falta de dinheiro lhe impusera tempos atrás. Pela primeira vez, está sendo o que realmente quer. Descobriu esse poder quando foi sozinha pra Disney há alguns meses, aproveitando uma promoção de verão. Sempre foi crítica às crueldades do sistema econômico, mas se aproveita bem das regalias que tem para consumir, e passou a acreditar que consumindo movimenta a economia, o que é necessário para que haja empregos. Dessa forma, estaria contribuindo para a manutenção das pessoas empregadas e isso lhe trazia paz no coração. Isso era suficiente para se ver como cidadã do mundo. Assim como vira na TV, concordava que se tivéssemos numa outra sociedade não teríamos as tecnologias que temos nem as possibilidades de consumir e viajar para onde quisermos. Talvez a pobreza compense a riqueza de outros, deve ser vontade de Deus, pensou. Quando na internet via alguma revolta popular, logo era esclarecida pelos jornalismos da TV. Quando na internet alguém fazia campanha contra a manipulação midiática da principal central de Jornalismo, ela pensava que tratava-se de um exagero de uns porra-loucas querendo aparecer com suas teorias fictícias. Pois se sentia livre pra pensar o que quisesse, até discordava de algumas matérias da TV, e isso era suficiente para lhe comprovar que ninguém detinha a sua mente. Afinal, estamos na pós-modernidade, onde não existem razões, e sim experiências individuais.

Pobre alma. Não percebeu que o sistema permanece e que é possível apagar a individualidade de cada ser, uniformizar-lhe a racionalidade em sua própria casa. Tal racionalidade se apropriou do discurso do irracional pós-moderno. Não viu que nenhum método de despersonalizar o ser, de privá-lo dos seus poderes humanos, é mais eficaz do que o que parece preservar a liberdade da pessoa e os direitos da individualidade.  O direito de escolher no que acreditar dentro da pós-modernidade (inerentemente irracional) a afasta de algumas realidades esquecidas no mundo atual. Isolada em seu quarto, onde tem o mundo nas mãos pela TV ou pela internet, não vê que a eficácia da manipulação é maior. Por trás da pós-modernidade há algo deveras racional. Por trás das náuseas das culturas que se misturam há o maior imperialismo de todos. Foi numa página de mídia social que ela viu tal advertência por parte de um jovem militante crítico do sistema. Cansada do blablablá de que é possível lutar contra o capitalismo, preferiu se resignar e estar de acordo com os valores de que devemos apenas viver o hoje, de acordo com a pós-modernidade. Nunca soube que na mesma escala em que se solta a pós-modernidade no mundo, o mundo articula-se cada vez mais de acordo com as exigências da razão instrumental, aquela que aprisiona como sempre aprisionou a liberdade humana que ela pensava deter e tanto prezava e comprovava a si mesma ao consumir o que quisesse. Coitada.


Leituras fundamentais para a criação deste texto:

ANDERS, Gunther. O Mundo Fantasmagórico da TV. IN: ROSENBERG, Bernard; WHITE, David Manning (orgs.). Cultura de Massa. São Paulo: Cultrix, 1973.
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política (Ensaios sobre a Literatura e História da Cultura). São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
IANNI, Octavio. Teorias da Globalização. 16ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Editora Arbor, 1981.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Cometa a revolução

Estamos acostumados a ver com olhos de inveja coisas dignas de admiração acontecendo nesse marasmo de vida com outrem. Onde o fluxo de tudo é voltado às regras de quem tem poder sobre nós, costumamos por aceitar sem grande resistência ao estilo de vida mais ortodoxo que existe. Assim, moldados pelo cansaço, nos resignamos de tal forma a fazer as coisas diferentemente achando não termos capacidade de irmos além e, por fim, não nos resta nada a não ser admirarmos aqueles que conseguem, a tal ponto de fazer deles os vencedores da vida com os quais devemos tratar como heróis, mártires, exemplos de correr atrás de objetivos.

Se não fôssemos tão comuns à imposição do sistema, veríamos neles companheiros niveladamente iguais de jornada ao invés de percebê-los como seres que milagrosamente conquistaram seu próprio sol. Quem são esses que tanto falo? Sim, aqueles empreendedores que sempre mostraram perseverança em seus idealismos e trabalharam para conquistá-los. Certamente enfrentaram fracassos que algum dia lhe fizeram bambear as razões, mas preferiram ir além motivando sua vida para além do que o sistema impõe nesse contexto limitador que é a pura concorrência e canibalismo mercadológicos, ou os problemas do localismo que prende quem quer voar para conhecer o mundo, ou a burocratização da criação e da emancipação humanas.

Por que elas conseguem e temos a sensação de que isso é pura sorte ou simples determinação divina?

As pessoas simplesmente fazem a revolução. Revolucionam a si quando se põem a perceber que é preciso existirem de fato. Reconhecem que até então elas apenas sobreviveram ou viveram em prol de outrem sem terem vivido a própria vida ainda, logo, se superam, e ao se superarem, superam os outros que apenas sobrevivem também.

E depois de revolucionarem a si, revolucionam todo o seu redor. E fertilizam o sucesso com perseverança e esclarecimento.

Não é algo difícil nem fácil de se conseguir. Basta fazer acontecer - caso queira - com a consciência voltada a isso.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Preceitos Filosóficos



Deus foi assassinado desde que a religião caiu perante a ciência. Apesar disso, muitos em contradição acham que ele está te vigiando pra alguma punição. Ah, todos nós gostamos de sofrer. Aliás, o sofrimento é algo que deve ser consumido enquanto nos consome, mas é preciso aprender a consumir o sofrimento correto. Já temos coisas demais a acreditar nesse mundo maluco, reger nossas vidas nos preocupando com o que existe além dele é pedir para definhar na loucura. A crença no divino é a crença na intervenção da loucura nessa sua vida. Não faz sentido, e se você acredita em absurdos sobrenaturais, eu também posso acreditar no absurdo de que os extraterrestres são os verdadeiros seres perfeitos, e que eu tenho superpoderes para evaporar quem odeio com o pensamento. Se são tão loucuras essas ideias, não é menos loucura que a tua crença de que vale a pena sofrer hoje esperando um tal de amanhã melhor.

O amanhã não existe. O futuro é ilógico, sequer temos certeza do que vem no minuto próximo. Essa certeza que tens sobre as horas seguintes é só mais um sintoma de tua loucura. Posso te matar, alguém pode te matar ou você pode morrer por si só em um acidente ou uma traição de tuas células a qualquer momento. Você pode descobrir o câncer avançado num exame comum, você pode nem descobrir porque morreu. E acreditando que um amanhã será sempre melhor, você cria expectativas que acabam se tornando frustrações.

É chegada a hora de conheceres a verdade! A verdade verdadeira, a verdade que só é digerível se tens a mente e o corpo preparados. Cuida-te da tua mente e do teu corpo, pois a verdade lhe atingirá com uma pancada que não sabeis quais as consequências posteriores.

De certo o amor que sentes, se for pautado na crença que tens no divino ou no amanhã, é uma mentira. De certo os teus valores, costumes e cultura, podem estar todos comprometidos, é só estar do lado da mentira que aflorou todos esses anos a nossa humanidade doente.

Nem sempre fomos doentes. Nos tornamos quando nos puniram com a capacidade de conhecer. E por medo criamos fé, pois sabemos com a história que a fé mata como um assassino em série. Mata por fora com lanças e granadas, mata por dentro com o peso na consciência por temer já não crer no divino. Mata rápido com suicídio e mata devagar com o definhamento da própria razão existencial. Ambas te fazem perder o sentido e deixar de existir. Sabemos que nossa humanidade é doente porque preferimos durante esse tempo todo uma ignorância redentora ao invés de procurar com sinceridade e autonomia a verdade reveladora sobre as coisas. E acreditando estarmos entre a dicotomia entre ser feliz e ter razão, preferimos a mentira. Essa doença se chama niilismo e só tem cura nos superando a nós mesmos em busca da verdadeira razão da vida, conferindo a ela própria um sentido.

Eis os procedimentos para alcançar a verdade: o primeiro deles é ser responsável pelas suas ações. Desde que Deus foi assassinado, você está livre para fazer o que quiser e arcar com as próprias consequências. Não existe ninguém que deverá te dizer como seguir, a não ser você mesmo, se redescobrindo a partir das tuas necessidades existenciais. Fareis o que amas fazer, e ainda que te punam, se por acaso houver compensação entre a ação e a consequência, então saíste no lucro.

Um segundo procedimento é o reconhecimento da condição em que vives. Se acaso nasceste pobre, rico, mediano, injustiçado ou aclamado pelo mundo, cabe a ti viver de acordo com o que tens. Mas isso não significa aceitar o que te impõem passivamente. Você tem capacidade de fazer o que quiser, e se fores o pobre que quer ser o rico, ou o rico que quer queimar toda tua riqueza, podereis fazer. Para isso é preciso viveres ativo todo o momento lúcido da tua vida. É construir o teu próprio domínio, todos os dias caminhando em sintonia com teus objetivos. Lembra-te que o amanhã não existe, portanto apenas se esforçais pra conquistar tais objetivos hoje. E se hoje não houver tempo suficiente, se utilizais do dia seguinte para refazê-lo de acordo com tuas vontades. Um dia você pode olhar pra trás e sorrir ou chorar. O caminho expressivo da tua face depende só de você, só do hoje e de mais ninguém. Sois livre pra escolher o que conquistar, ou mesmo livre pra conquistares nada. A propósito, se é lícito existir alguma filosofia, que ela seja feita da vida real para o além, e não o contrário, como temos aprendido nessa humanidade doente. 

Você é, no fim das contas, responsável por tudo o que lhe afeta. Desde a paixonite até os problemas da vizinhança. Desde a corrupção de teu governo à conquista da loteria pelo desconhecido. Desde o assassinato do bandido às mortes de jovens na guerra. Desde o cultivo da semente ao nascimento da criança. Tudo que tens poder de intervir, sem exceção, é de responsabilidade tua. Se sois portanto um cidadão do mundo, o que acontece no mundo é de responsabilidade tua.

Um terceiro procedimento é o reconhecimento do que é natural ao fato de viver. Viver por si é algo sem sentido. Não devemos perder tempo procurando saber porque existimos ou para onde vamos, e porque nascemos dessa forma e não  de outra. É preciso reconhecer (uma tarefa desafiante caso estamos contaminados pela humanidade doente) que estamos livres para conferir sentido à vida. Ela só se manterá com alguma razão se tecermos a razão nela de acordo com nossas escolhas. Mas existem características objetivas da vida que todos temos que considerar, sem negá-las nem temê-las, diferente de nossa humanidade doente. Falo da dor e do fato de ser feliz.

A dor existe? Óbvio, ela faz parte do ser humano. Lhe é tão natural quanto a capacidade de rir das piadas da vida. Nossa humanidade doente nos fez temer a dor ou suportá-la apenas em prol de um objetivo inexistente. É preciso saber conviver com a dor, e se porventura amas a vida, também tens de amar a dor e os sentimentos de felicidade, pois são parte integrante do fato de viver. Imbecil aquele que se rende por não lidar com a dor. Aquele que deixa os outros tomarem conta de sua vida para sofrer menos ou se suicida. A dor é sinal de vida, de que você está se desenvolvendo. Estar triste é um preço a se pagar por poder também sorrir. Esses que não entendem que viver é sorrir e chorar merecem o título de seres inexistentes.

Ser feliz talvez seja o objetivo de todo o ser humano, mas toda felicidade tem seu tempo de duração. E se o ser humano não conseguir compreender o que realmente é ser feliz, acaba buscando uma felicidade hedonista e pragmática, tentando atingir prazeres a todo momento. Essa felicidade desesperada não é sinal da felicidade verdadeira, pois está obrigando o indivíduo a ser feliz, e toda obrigação conduz necessariamente a um ponto de tristeza e insatisfação.

Prefira a felicidade espontânea, ela conduz a um ponto de felicidade real. Cultive espontaneidades de coisas que consideras boas para ti, e assim logo saberás qual é a tua felicidade real.

Bem e mal não existem em essência. São frutos de legitimações. Construa-os com os seus.

Tudo é feito pra acabar. Se você é incapaz de entender isso e não saber viver com isso, então você simplesmente não sabe viver.

Enfim, essa é a verdade, cujo tamanho da tua liberdade é do tamanho das tuas responsabilidades. Ser livre não significa estar ausente de responsabilidades, e sim buscar o domínio do que quiseres fazer com bom senso. As leis tendem a se modificar com os homens, pois são os homens que as modificam. Que esta verdade seja a legítima e substitua as coisas mais imperfeitas, como a capacidade de cura de um médico substitui a capacidade de cura de Deus.

Agora vai, constrói-te dia a dia. Elevai teu espírito, este que não tem aonde ir senão estar dentro e em volta de ti mesmo, e em tudo aquilo que puderes fazer. Não existe outra hora para se existir. Construa a tua existência, é isso o que importa a todos nós.

Peraí sociologia...

"Peraí sociologia, deixa eu ver se entendi: cê tem um monte de teóricos que geralmente se criticam. Uns dizem que a realidade é assim, outros dizem que é assada. Só de vez em quando há um bom senso complementar entre uma e outra visão, e o sucesso da fama do teórico é o que o faz seguir lembrado ao longo dos anos. Pode isso, Comte?"

Essa reflexão é comum quando os estudantes recém-chegados de Ciências Sociais estão em contato com autores teóricos e logo veem a aparente "guerra de negação" entre um e outro para suplantarem sua teoria. E por vezes a forma de entender a ciência dessa forma é capaz de fazer muitos desistirem e acharem que é perca de tempo estudar aquilo que até hoje é uma grande incógnita: o nosso mundo.

Se você ver bem, no entanto, não se trata de puras anulações teóricas. Essa "guerra", que há também na filosofia e em diversas outras ciências humanas, são parte integrante da própria lógica de construção das ciências que pensam o homem e suas relações com sua própria espécie e com a natureza. É comum que hajam autores que, em prol de sua própria valorização teórica, busquem criticar as teorias existentes e eu não vejo isso (pelo menos não mais, diferente de quando eu também pensei logo no início do curso, há 4 anos) como um entrave à ciência. 

Notemos que quanto mais se critica, mais se coloca uma nova questão a se refletir, aonde o autor criticado não levou adiante por algum motivo. Nesse caso, cabe aos novos sociólogos, aqueles que criticam, identificarem o eventual engano ou limitação teórica e propor um novo caminho. 

Renovar as teorias é algo enriquecedor. Logo, nossa ciência não é como aquelas, cujas descobertas são colocadas numa gaveta e eternizadas. São ciências frias, exatas, mas sem nenhuma chance aos cientistas de intervirem na teoria com uma nova forma de pensar o mundo, mais enriquecedora do que aquela que alguém pensou há 500 anos.

Novas teorias sugerem que há uma ebulição da realidade social e a eterna necessidade de verificar e estudar sua dinâmica. Tais argumentações também indicam como a nossa sociedade muda, e como mudamos nossos valores e cultura diante dessas dinâmicas. Ao mesmo tempo, vemos a complexidade do que a sociologia tenta empreender. Realmente é impossível dar conta de todas as relações dignas de análise sociológica a partir de um único autor. A complexidade da realidade social tem contribuído para novas e especificas teorizações, dentre as quais estão as que jamais podem se misturar por se tratar da dinâmica específica da realidade sobre a qual se está sendo construído o estudo.  No fim das contas, o debate entre a continuidade de uma teoria clássica ou o rompimento com uma análise nova da realidade promovem reflexões inéditas, e talvez isso seja o mais sensacional de nossa ciência social.

E é assim, verificando, corrigindo ou criticando, que marcamos nossa existência e desenvolvemos nossa contribuição para a ciência! Isso não é ótimo, Comte?