domingo, 19 de fevereiro de 2012

O declínio do sentido da arte pela arte na contemporaneidade

A arte, de uma maneira geral, tem sua relevância no mundo a partir da relação com a sociedade que a sustenta. Dessa forma, em periodos bucólicos, é comum a valorização à arte bucólica. Em períodos cujos agentes históricos são sobretudo o povo burguês, o romantismo mediado pelo tema do ócio também ganha força e centralidade entre os poetas. Diante das ideias de progresso e racionalidade, o parnasianismo e a reprodução fiel entram em cena; e durante as guerras e demais conflitos nacionais, a arte ganha caráter de protesto e de denúncia. Em outras palavras, o uso que se faz da arte época por época é capaz de definir características da própria sociedade em curso.

Tendo em vista essa relação, como a arte se comporta na contemporaneidade? Tirando o fato de que as relações dinâmicas as quais estamos visualizando em uma grande velocidade e a nivel global nos fazem ter dúvidas imensas sobre o que se mantém e o que se dissolve pela ligeireza das nossas experiências, uma coisa é certa: a (r)evolução promovida pela globalização atinge todos os modos de vida do planeta, inclusive na produção do campo da arte.

Devemos o avanço global à tecnologia atrelada à ciência, culminando com a Internet (pelo menos nos 50 anos  iniciais de globalização). Na internet, aonde dependemos menos da televisão para escolher-nos o que deve ser consumido e o que deve ser ignorado, vemos nascer em todas as regiões artistas muito talentosos em diversos campos da arte (atores, diretores de cinema, músicos, pintores, desenhistas etc.). A questão que interessa não é saber necessariamente o que a arte produz para representar a vida globalizada, pois este fenômeno é tão recente que provavelmente artistas do mundo todo ainda não conseguiram oferecer uma representação digna de "globalização" a ponto de ser eleita como a tradução de nossa época.

O que importa realmente questionar é como as tecnologias tem modificado profundamente não só as possibilidades de comunicação, informação e deslocamento in the whole world, mas a arte em si.

A impressão básica que se tem é que a arte pela arte começa a perder o sentido justamente onde carece de sentido. O contato com inúmeras formas artísticas ao longo da vida globalizada faz com que a produção de arte tenha sido massificada. (Talvez, na verdade, tenha sido sempre assim. Poderiam sempre ter existido outros DaVincis; o fato de não pertencer à cultura européia ou não dotarem de capital social poderia ter feito desses artistas desconhecidos inexistentes para sempre). Uma vez massificada, é possível encontrar a arte em todos os lugares, falando de todas as coisas, criada por todo tipo de gente que gosta de produzir arte. 

Quando digo que a arte passa a carecer de sentido nesse mar de informações, me refiro justamente por ela ter sentido demais; mas é um sentido quantitativamente determinado, aonde não há tendências a legitimações entre o que é a arte representante desta era global e o que não é. Nesse sentido, a pluralidade de produções que passamos a conhecer banaliza e apaga a tal "aura" do pensamento frankfurtiano do século XX.

O sentido da arte está voltado a seu próprio povo que produz. Além disso, produzimos coisas que são do outro lado do mundo. Existe arte de protesto na mesma medida da arte expressionista. É como se o mundo fosse uma grande tela, o artista fosse uma lata de tinta e a arte produzida fosse cacofônica e ruidosa, a ponto de não sabermos se a admiramos ou achamos tudo aquilo incrivelmente comum demais e, por isso mesmo, sem surpresa. Nesse sentido nem a arte mais bela ou a reprodução manual mais perfeita escapa da admiração rápida, ou até mesmo da falta de admiração.

O computador tem contribuído para isso. Desde que foi possível criar músicas, imagens, editar filmes, fazer a arte manualmente, sem a ajuda dessas técnicas, tem se tornado obsoleta. Repare na reprodução artística de uma pessoa, feita à mão. Coisas que há tempos admiraríamos, hoje poderemos achar bobagem e até perca de tempo, uma vez que essa mesma reprodução se dá quando usamos ferramentas do computador, em apenas alguns minutos.

O que quero dizer é que a arte pela arte está em fase de declínio, pois ela por si não tem como garantir a atenção daqueles que estão apaixonados pela tecnologia e pela capacidade de a tecnologia ajudar o homem comum a ser o melhor dos artistas apenas criando em Photoshop. Enquanto que os verdadeiros artistas, que estudam desde cedo os processos artísticos e se criaram desenvolvendo seu dom e praticando por anos, se veem obsoletos, pois o homem comum, pouco artista, sabe fazer o que o artista faz manualmente num programa de computador.

Para onde estamos indo, afinal?
Não sabemos ao certo, mas há coisas que sabemos que não acompanham a sociedade atual, e a arte pela arte é uma delas. Falar em globalização é falar em capitalismo. Tudo o que é conhecido mundialmente está atrelado às relações de lucro. Talvez a única saída ao artista em seu "tipo ideal" (puro, artista de mão, que não depende de softwares de imagem) seja justamente se agarrar a essas ferramentas para tentar de alguma forma sobressair sobre aqueles que fazem arte, mas não são tão artistas quanto em termos de qualidade. Além disso, a arte pela arte, aquela que se faz pra guardar em quadros ou deixar na gaveta da escrivaninha e mostrar só a quem está por perto está morrendo. É preciso refuncionalizar a arte, da mesma forma que a passagem da arte parnasiana para a da época seguinte no século XX (simbolismo, modernismo). Não sabemos que corrente estes artistas estarão contribuindo a construir, mas se manter contra a maré simplesmente é resignar sua arte pela arte ao esquecimento. Serão mais artistas como aqueles DaVincis esquecidos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário