quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Preceitos Filosóficos



Deus foi assassinado desde que a religião caiu perante a ciência. Apesar disso, muitos em contradição acham que ele está te vigiando pra alguma punição. Ah, todos nós gostamos de sofrer. Aliás, o sofrimento é algo que deve ser consumido enquanto nos consome, mas é preciso aprender a consumir o sofrimento correto. Já temos coisas demais a acreditar nesse mundo maluco, reger nossas vidas nos preocupando com o que existe além dele é pedir para definhar na loucura. A crença no divino é a crença na intervenção da loucura nessa sua vida. Não faz sentido, e se você acredita em absurdos sobrenaturais, eu também posso acreditar no absurdo de que os extraterrestres são os verdadeiros seres perfeitos, e que eu tenho superpoderes para evaporar quem odeio com o pensamento. Se são tão loucuras essas ideias, não é menos loucura que a tua crença de que vale a pena sofrer hoje esperando um tal de amanhã melhor.

O amanhã não existe. O futuro é ilógico, sequer temos certeza do que vem no minuto próximo. Essa certeza que tens sobre as horas seguintes é só mais um sintoma de tua loucura. Posso te matar, alguém pode te matar ou você pode morrer por si só em um acidente ou uma traição de tuas células a qualquer momento. Você pode descobrir o câncer avançado num exame comum, você pode nem descobrir porque morreu. E acreditando que um amanhã será sempre melhor, você cria expectativas que acabam se tornando frustrações.

É chegada a hora de conheceres a verdade! A verdade verdadeira, a verdade que só é digerível se tens a mente e o corpo preparados. Cuida-te da tua mente e do teu corpo, pois a verdade lhe atingirá com uma pancada que não sabeis quais as consequências posteriores.

De certo o amor que sentes, se for pautado na crença que tens no divino ou no amanhã, é uma mentira. De certo os teus valores, costumes e cultura, podem estar todos comprometidos, é só estar do lado da mentira que aflorou todos esses anos a nossa humanidade doente.

Nem sempre fomos doentes. Nos tornamos quando nos puniram com a capacidade de conhecer. E por medo criamos fé, pois sabemos com a história que a fé mata como um assassino em série. Mata por fora com lanças e granadas, mata por dentro com o peso na consciência por temer já não crer no divino. Mata rápido com suicídio e mata devagar com o definhamento da própria razão existencial. Ambas te fazem perder o sentido e deixar de existir. Sabemos que nossa humanidade é doente porque preferimos durante esse tempo todo uma ignorância redentora ao invés de procurar com sinceridade e autonomia a verdade reveladora sobre as coisas. E acreditando estarmos entre a dicotomia entre ser feliz e ter razão, preferimos a mentira. Essa doença se chama niilismo e só tem cura nos superando a nós mesmos em busca da verdadeira razão da vida, conferindo a ela própria um sentido.

Eis os procedimentos para alcançar a verdade: o primeiro deles é ser responsável pelas suas ações. Desde que Deus foi assassinado, você está livre para fazer o que quiser e arcar com as próprias consequências. Não existe ninguém que deverá te dizer como seguir, a não ser você mesmo, se redescobrindo a partir das tuas necessidades existenciais. Fareis o que amas fazer, e ainda que te punam, se por acaso houver compensação entre a ação e a consequência, então saíste no lucro.

Um segundo procedimento é o reconhecimento da condição em que vives. Se acaso nasceste pobre, rico, mediano, injustiçado ou aclamado pelo mundo, cabe a ti viver de acordo com o que tens. Mas isso não significa aceitar o que te impõem passivamente. Você tem capacidade de fazer o que quiser, e se fores o pobre que quer ser o rico, ou o rico que quer queimar toda tua riqueza, podereis fazer. Para isso é preciso viveres ativo todo o momento lúcido da tua vida. É construir o teu próprio domínio, todos os dias caminhando em sintonia com teus objetivos. Lembra-te que o amanhã não existe, portanto apenas se esforçais pra conquistar tais objetivos hoje. E se hoje não houver tempo suficiente, se utilizais do dia seguinte para refazê-lo de acordo com tuas vontades. Um dia você pode olhar pra trás e sorrir ou chorar. O caminho expressivo da tua face depende só de você, só do hoje e de mais ninguém. Sois livre pra escolher o que conquistar, ou mesmo livre pra conquistares nada. A propósito, se é lícito existir alguma filosofia, que ela seja feita da vida real para o além, e não o contrário, como temos aprendido nessa humanidade doente. 

Você é, no fim das contas, responsável por tudo o que lhe afeta. Desde a paixonite até os problemas da vizinhança. Desde a corrupção de teu governo à conquista da loteria pelo desconhecido. Desde o assassinato do bandido às mortes de jovens na guerra. Desde o cultivo da semente ao nascimento da criança. Tudo que tens poder de intervir, sem exceção, é de responsabilidade tua. Se sois portanto um cidadão do mundo, o que acontece no mundo é de responsabilidade tua.

Um terceiro procedimento é o reconhecimento do que é natural ao fato de viver. Viver por si é algo sem sentido. Não devemos perder tempo procurando saber porque existimos ou para onde vamos, e porque nascemos dessa forma e não  de outra. É preciso reconhecer (uma tarefa desafiante caso estamos contaminados pela humanidade doente) que estamos livres para conferir sentido à vida. Ela só se manterá com alguma razão se tecermos a razão nela de acordo com nossas escolhas. Mas existem características objetivas da vida que todos temos que considerar, sem negá-las nem temê-las, diferente de nossa humanidade doente. Falo da dor e do fato de ser feliz.

A dor existe? Óbvio, ela faz parte do ser humano. Lhe é tão natural quanto a capacidade de rir das piadas da vida. Nossa humanidade doente nos fez temer a dor ou suportá-la apenas em prol de um objetivo inexistente. É preciso saber conviver com a dor, e se porventura amas a vida, também tens de amar a dor e os sentimentos de felicidade, pois são parte integrante do fato de viver. Imbecil aquele que se rende por não lidar com a dor. Aquele que deixa os outros tomarem conta de sua vida para sofrer menos ou se suicida. A dor é sinal de vida, de que você está se desenvolvendo. Estar triste é um preço a se pagar por poder também sorrir. Esses que não entendem que viver é sorrir e chorar merecem o título de seres inexistentes.

Ser feliz talvez seja o objetivo de todo o ser humano, mas toda felicidade tem seu tempo de duração. E se o ser humano não conseguir compreender o que realmente é ser feliz, acaba buscando uma felicidade hedonista e pragmática, tentando atingir prazeres a todo momento. Essa felicidade desesperada não é sinal da felicidade verdadeira, pois está obrigando o indivíduo a ser feliz, e toda obrigação conduz necessariamente a um ponto de tristeza e insatisfação.

Prefira a felicidade espontânea, ela conduz a um ponto de felicidade real. Cultive espontaneidades de coisas que consideras boas para ti, e assim logo saberás qual é a tua felicidade real.

Bem e mal não existem em essência. São frutos de legitimações. Construa-os com os seus.

Tudo é feito pra acabar. Se você é incapaz de entender isso e não saber viver com isso, então você simplesmente não sabe viver.

Enfim, essa é a verdade, cujo tamanho da tua liberdade é do tamanho das tuas responsabilidades. Ser livre não significa estar ausente de responsabilidades, e sim buscar o domínio do que quiseres fazer com bom senso. As leis tendem a se modificar com os homens, pois são os homens que as modificam. Que esta verdade seja a legítima e substitua as coisas mais imperfeitas, como a capacidade de cura de um médico substitui a capacidade de cura de Deus.

Agora vai, constrói-te dia a dia. Elevai teu espírito, este que não tem aonde ir senão estar dentro e em volta de ti mesmo, e em tudo aquilo que puderes fazer. Não existe outra hora para se existir. Construa a tua existência, é isso o que importa a todos nós.

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