segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sonhos pós-modernos


Um dia de sol escaldante nas tarde de domingo é de convidar qualquer um a cair na praia de águas radiantes bem em frente ao apartamento. No entanto, não há amigos por perto no momento. Todos estão no quarto, numa tela brilhante cujas frases, sons e símbolos de expressão dão o tom da conversa. E lá está ela, sorrindo sozinha naquele quarto escuro protegendo-se do calor com ar condicionado em nível máximo de refrigeração e ignorando a existência do sol. A pele branquíssima denuncia: faz tempo que não determina a douração pelo bronzeamento natural.

Todos os fins de semana e feriado têm sido assim. Durante a semana, quando trabalha, compartilha com todos os amigos online através de mensagens rápidas os sentimentos e os desejos de que venham logo os feriados e os dias de folga. E ao chegarem tais dias, separa os momentos entre a faxina e a atenção ao computador. De vez em quando divide o instrumento interacionista com a TV, quando passa aquele seriado tão esperado em HD. Quando lhe vem à cabeça o sentimento de ausência, faz um telefonema e logo está reabilitada novamente a permanecer o resto do dia explorando a própria liberdade individual. Não há marido nem namorado. O filho está com o Ex, na outra cidade e só vem em tempos de reunião familiar. Qualquer dúvida a respeito da segurança de si é obliterada em livros de auto-ajuda que comprou na feira do Movimento Hare Krishna que se instalou ano passado em um stand do shopping ali perto. A cultura global, o acesso imediato às informações de todo o mundo, a presença virtual dos amigos de longa distância são pílulas da atualidade cujas doses enfrentam as enfermidades que outrora surgem no ser. São coisas dos tempos pós-modernos.

Ela cresceu com novas ideias que entraram na moda com a humanidade globalizada: o sentimento de liberdade foi estabelecido e você pode ser o que quiser, até quem você não é, a partir das chances que aproveita nas inúmeras possibilidades de vidas que consegue criar na rede. Combinado a isso, você precisa ser vista com certa sobressaliência no mundo online para ser reconhecida nas ruas. Para tanto, confessar é preciso. Uma ausência de atualização em alguma mídia social e você tem atenção pulverizada. Nessas necessidades atuais de presença do ser contínua e interligada, onde tudo é consumido numa velocidade estonteante, não basta apenas a qualidade do que você compartilha – é preciso sempre mais. Marcar o território com os dejetos da mente e até excessos são permitidos. Para além do cotidiano, a filosofia manda você buscar a felicidade individual em detrimento à dependência dos outros, e você aprende a ser maliciosa. Enquanto os outros fingem que te enganam, você acredita que pode enganar eles com o troco perfeito. E eis que surge a última regra a ser obedecida nesse mundo aparentemente sem regras, confuso, pós-moderno: seja você e não seja ao mesmo tempo. Seja perfeita, mesmo que você não seja. Seja feliz, mesmo que você chore. Seja sincera, mesmo que isso seja uma mentira. Seja mentirosa, mesmo que tenhas aprendido que isso é um crime ético. Em outras palavras, tens a oportunidade perfeita de ser mais o que você quer que os outros pensem de você do que você é de fato. És livre como nunca. E se por ventura alguém não te interessa ou te procura demais, basta cortar o laço afetivo com um clique apenas. Se tudo é efêmero, os dias de hoje tem o prazo de validade do produto mais vulnerável. A aparência dita o novo tom da realidade, e você não precisa contar nada sobre os seus defeitos.

Ela costuma passar horas assistindo TV quando não quer conversar com ninguém. Zapeando de canal em canal, vê um documentário jornalístico sobre reflexões em torno do hoje. Aprende que a verdade é pura e simplesmente fragmentária. Tudo é desconstruído, histórias foram enterradas enquanto as sociedades tentam recriar sua própria explicação. Assim como as pessoas, só querem mostrar o que têm de bom. A tradição sobrevive com o dinheiro que obtém vendendo-se ao mundo, globalizando-se. O índio joga nos sites de vídeos depoimentos sobre sua cultura. As imagens substituem as mil palavras. A guerra mundial se tornou cotidiana, e aprendemos a odiar outros regimes que não seja esse capitalismo libertário, que parece ter acabado com as antigas relações de exploração do trabalhador. Mas tem um país ou outro que entra em recessão e muita gente desempregada morre matando.

Ela para um pouco pra pensar que não entende o que aquelas pessoas fazem, achando exagero elas acabando com a própria vida! Escreve alguma coisa no smartphone sobre o assunto e envia para as mídias sociais, para os outros perceberem-na como alguém que se interessa por política. Depois muda de canal e vai assistir a série americana que vai estrear e que viu na internet que estava cotada pra ser um sucesso mundial.

Ela está satisfeita com tudo o que tem. Seus pais lhe deixaram numa situação confortável: ganhou carro quando se formou, foi direto estagiar e é uma das mais conhecidas empregadas na empresa onde trabalha. Ganha bem, gasta com tecnologia e com idas frequentes ao  cinema. À medida que se individualiza comprando roupas novas e câmeras de última geração para fotografar o panorama que tem da janela do seu apartamento, lá de cima do prédio, imagina estar rompendo as barreiras que a falta de dinheiro lhe impusera tempos atrás. Pela primeira vez, está sendo o que realmente quer. Descobriu esse poder quando foi sozinha pra Disney há alguns meses, aproveitando uma promoção de verão. Sempre foi crítica às crueldades do sistema econômico, mas se aproveita bem das regalias que tem para consumir, e passou a acreditar que consumindo movimenta a economia, o que é necessário para que haja empregos. Dessa forma, estaria contribuindo para a manutenção das pessoas empregadas e isso lhe trazia paz no coração. Isso era suficiente para se ver como cidadã do mundo. Assim como vira na TV, concordava que se tivéssemos numa outra sociedade não teríamos as tecnologias que temos nem as possibilidades de consumir e viajar para onde quisermos. Talvez a pobreza compense a riqueza de outros, deve ser vontade de Deus, pensou. Quando na internet via alguma revolta popular, logo era esclarecida pelos jornalismos da TV. Quando na internet alguém fazia campanha contra a manipulação midiática da principal central de Jornalismo, ela pensava que tratava-se de um exagero de uns porra-loucas querendo aparecer com suas teorias fictícias. Pois se sentia livre pra pensar o que quisesse, até discordava de algumas matérias da TV, e isso era suficiente para lhe comprovar que ninguém detinha a sua mente. Afinal, estamos na pós-modernidade, onde não existem razões, e sim experiências individuais.

Pobre alma. Não percebeu que o sistema permanece e que é possível apagar a individualidade de cada ser, uniformizar-lhe a racionalidade em sua própria casa. Tal racionalidade se apropriou do discurso do irracional pós-moderno. Não viu que nenhum método de despersonalizar o ser, de privá-lo dos seus poderes humanos, é mais eficaz do que o que parece preservar a liberdade da pessoa e os direitos da individualidade.  O direito de escolher no que acreditar dentro da pós-modernidade (inerentemente irracional) a afasta de algumas realidades esquecidas no mundo atual. Isolada em seu quarto, onde tem o mundo nas mãos pela TV ou pela internet, não vê que a eficácia da manipulação é maior. Por trás da pós-modernidade há algo deveras racional. Por trás das náuseas das culturas que se misturam há o maior imperialismo de todos. Foi numa página de mídia social que ela viu tal advertência por parte de um jovem militante crítico do sistema. Cansada do blablablá de que é possível lutar contra o capitalismo, preferiu se resignar e estar de acordo com os valores de que devemos apenas viver o hoje, de acordo com a pós-modernidade. Nunca soube que na mesma escala em que se solta a pós-modernidade no mundo, o mundo articula-se cada vez mais de acordo com as exigências da razão instrumental, aquela que aprisiona como sempre aprisionou a liberdade humana que ela pensava deter e tanto prezava e comprovava a si mesma ao consumir o que quisesse. Coitada.


Leituras fundamentais para a criação deste texto:

ANDERS, Gunther. O Mundo Fantasmagórico da TV. IN: ROSENBERG, Bernard; WHITE, David Manning (orgs.). Cultura de Massa. São Paulo: Cultrix, 1973.
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política (Ensaios sobre a Literatura e História da Cultura). São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
IANNI, Octavio. Teorias da Globalização. 16ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Editora Arbor, 1981.

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