Um dia de sol
escaldante nas tarde de domingo é de convidar qualquer um a cair na praia de
águas radiantes bem em frente ao apartamento. No entanto, não há amigos por
perto no momento. Todos estão no quarto, numa tela brilhante cujas frases, sons
e símbolos de expressão dão o tom da conversa. E lá está ela, sorrindo sozinha
naquele quarto escuro protegendo-se do calor com ar condicionado em nível
máximo de refrigeração e ignorando a existência do sol. A pele branquíssima
denuncia: faz tempo que não determina a douração pelo bronzeamento natural.
Todos os fins
de semana e feriado têm sido assim. Durante a semana, quando trabalha,
compartilha com todos os amigos online através de mensagens rápidas os
sentimentos e os desejos de que venham logo os feriados e os dias de folga. E
ao chegarem tais dias, separa os momentos entre a faxina e a atenção ao computador. De
vez em quando divide o instrumento interacionista com a TV, quando passa aquele
seriado tão esperado em HD. Quando lhe vem à cabeça o sentimento de ausência,
faz um telefonema e logo está reabilitada novamente a permanecer o resto do dia
explorando a própria liberdade individual. Não há marido nem namorado. O filho
está com o Ex, na outra cidade e só vem em tempos de reunião familiar. Qualquer
dúvida a respeito da segurança de si é obliterada em livros de auto-ajuda que comprou
na feira do Movimento Hare Krishna que se instalou ano passado em um stand do shopping
ali perto. A cultura global, o acesso imediato às informações de todo o mundo,
a presença virtual dos amigos de longa distância são pílulas da atualidade cujas
doses enfrentam as enfermidades que outrora surgem no ser. São coisas dos
tempos pós-modernos.
Ela cresceu
com novas ideias que entraram na moda com a humanidade globalizada: o
sentimento de liberdade foi estabelecido e você pode ser o que quiser, até quem
você não é, a partir das chances que aproveita nas inúmeras possibilidades de
vidas que consegue criar na rede. Combinado a isso, você precisa ser vista com
certa sobressaliência no mundo online para ser reconhecida nas ruas. Para
tanto, confessar é preciso. Uma ausência de atualização em alguma mídia social
e você tem atenção pulverizada. Nessas necessidades atuais de presença do ser
contínua e interligada, onde tudo é consumido numa velocidade estonteante, não
basta apenas a qualidade do que você compartilha – é preciso sempre mais.
Marcar o território com os dejetos da mente e até excessos são permitidos. Para
além do cotidiano, a filosofia manda você buscar a felicidade individual em
detrimento à dependência dos outros, e você aprende a ser maliciosa. Enquanto
os outros fingem que te enganam, você acredita que pode enganar eles com o
troco perfeito. E eis que surge a última regra a ser obedecida nesse mundo
aparentemente sem regras, confuso, pós-moderno: seja você e não seja ao mesmo
tempo. Seja perfeita, mesmo que você não seja. Seja feliz, mesmo que você
chore. Seja sincera, mesmo que isso seja uma mentira. Seja mentirosa, mesmo que
tenhas aprendido que isso é um crime ético. Em outras palavras, tens a
oportunidade perfeita de ser mais o que você quer que os outros pensem de você
do que você é de fato. És livre como nunca. E se por ventura alguém não te
interessa ou te procura demais, basta cortar o laço afetivo com um clique
apenas. Se tudo é efêmero, os dias de hoje tem o prazo de validade do produto
mais vulnerável. A aparência dita o novo tom da realidade, e você não precisa
contar nada sobre os seus defeitos.
Ela costuma
passar horas assistindo TV quando não quer conversar com ninguém. Zapeando de
canal em canal, vê um documentário jornalístico sobre reflexões em torno do
hoje. Aprende que a verdade é pura e simplesmente fragmentária. Tudo é
desconstruído, histórias foram enterradas enquanto as sociedades tentam recriar
sua própria explicação. Assim como as pessoas, só querem mostrar o que têm de
bom. A tradição sobrevive com o dinheiro que obtém vendendo-se ao mundo,
globalizando-se. O índio joga nos sites de vídeos depoimentos sobre sua
cultura. As imagens substituem as mil palavras. A guerra mundial se tornou
cotidiana, e aprendemos a odiar outros regimes que não seja esse capitalismo
libertário, que parece ter acabado com as antigas relações de exploração do
trabalhador. Mas tem um país ou outro que entra em recessão e muita gente
desempregada morre matando.
Ela para um
pouco pra pensar que não entende o que aquelas pessoas fazem, achando exagero
elas acabando com a própria vida! Escreve alguma coisa no smartphone sobre o
assunto e envia para as mídias sociais, para os outros perceberem-na como alguém
que se interessa por política. Depois muda de canal e vai assistir a série
americana que vai estrear e que viu na internet que estava cotada pra ser um
sucesso mundial.
Ela está satisfeita com tudo o que tem. Seus pais lhe deixaram numa situação confortável: ganhou
carro quando se formou, foi direto estagiar e é uma das mais conhecidas
empregadas na empresa onde trabalha. Ganha bem, gasta com tecnologia e com idas
frequentes ao cinema. À medida que se
individualiza comprando roupas novas e câmeras de última geração para
fotografar o panorama que tem da janela do seu apartamento, lá de cima do
prédio, imagina estar rompendo as barreiras que a falta de dinheiro lhe
impusera tempos atrás. Pela primeira vez, está sendo o que realmente quer.
Descobriu esse poder quando foi sozinha pra Disney há alguns meses,
aproveitando uma promoção de verão. Sempre foi crítica às crueldades do sistema
econômico, mas se aproveita bem das regalias que tem para consumir, e passou a
acreditar que consumindo movimenta a economia, o que é necessário para que haja
empregos. Dessa forma, estaria contribuindo para a manutenção das pessoas
empregadas e isso lhe trazia paz no coração. Isso era suficiente para se ver
como cidadã do mundo. Assim como vira na TV, concordava que se tivéssemos numa outra
sociedade não teríamos as tecnologias que temos nem as possibilidades de
consumir e viajar para onde quisermos. Talvez a pobreza compense a riqueza de
outros, deve ser vontade de Deus, pensou. Quando na internet via alguma revolta
popular, logo era esclarecida pelos jornalismos da TV. Quando na internet alguém
fazia campanha contra a manipulação midiática da principal central de
Jornalismo, ela pensava que tratava-se de um exagero de uns porra-loucas
querendo aparecer com suas teorias fictícias. Pois se sentia livre pra pensar o
que quisesse, até discordava de algumas matérias da TV, e isso era suficiente
para lhe comprovar que ninguém detinha a sua mente. Afinal, estamos na
pós-modernidade, onde não existem razões, e sim experiências individuais.
Pobre alma.
Não percebeu que o sistema permanece e que é possível apagar a individualidade
de cada ser, uniformizar-lhe a racionalidade em sua própria casa. Tal
racionalidade se apropriou do discurso do irracional pós-moderno. Não viu que nenhum
método de despersonalizar o ser, de privá-lo dos seus poderes humanos, é mais
eficaz do que o que parece preservar a liberdade da pessoa e os direitos da
individualidade. O direito de escolher no
que acreditar dentro da pós-modernidade (inerentemente irracional) a afasta de
algumas realidades esquecidas no mundo atual. Isolada em seu quarto, onde tem o
mundo nas mãos pela TV ou pela internet, não vê que a eficácia da manipulação é
maior. Por trás da pós-modernidade há algo deveras racional. Por trás das
náuseas das culturas que se misturam há o maior imperialismo de todos. Foi numa
página de mídia social que ela viu tal advertência por parte de um jovem militante
crítico do sistema. Cansada do blablablá de que é possível lutar contra o
capitalismo, preferiu se resignar e estar de acordo com os valores de que
devemos apenas viver o hoje, de acordo com a pós-modernidade. Nunca soube que na
mesma escala em que se solta a pós-modernidade no mundo, o mundo articula-se
cada vez mais de acordo com as exigências da razão instrumental, aquela que
aprisiona como sempre aprisionou a liberdade humana que ela pensava deter e
tanto prezava e comprovava a si mesma ao consumir o que quisesse. Coitada.
Leituras fundamentais para a
criação deste texto:
ANDERS, Gunther. O Mundo
Fantasmagórico da TV. IN: ROSENBERG, Bernard; WHITE, David Manning (orgs.).
Cultura de Massa. São Paulo: Cultrix, 1973.
BENJAMIN, Walter. Magia e
Técnica, Arte e Política (Ensaios sobre a Literatura e História da Cultura).
São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.
IANNI, Octavio. Teorias da
Globalização. 16ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre a
fotografia. Rio de Janeiro: Editora Arbor, 1981.
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