Feira de Murici. Onde os produtores da área agropecuária se encontram. Onde a relação campo-cidade se faz mais contundentemente. Passando e comprando numas dessas barracas, um vendedor comenta sobre política:
- Todo mundo diz: "não venda seu voto"... Mas se alguém chegar com dinheiro, eu vendo!
E o seguinte interlocutor diz:
- É... É tudo ladrão mesmo, não tem diferença. O cara vai deixar de ganhar seu dinheirinho?
É gritante, mas é um fato da realidade, e o pior de tudo é que são opiniões que percebem uma atual situação política que temos muitas vezes que concordar com eles. Não sobre a legitimidade para a venda de voto, o que é o efeito de nosso sistema político, mas justamente sua causa: o problema do multipartidarismo, as fragmentações de ideologias, e com isso sua respectiva vulgarização. Ao eleitor, aquele mesmo das áreas mais campesinas onde se pode imaginar em qualquer canto do Brasil, a potencialidade à corrupção justificada na percepção de uma política "sem futuro" e "indiferente" salta pela língua e atinge em cheio quem pensa que isso é ficção.
Não existe PT, PMDB, PSDB que cause paixões republicanas nessas pessoas que vendem seu voto à troco de uma vantagem imediata, qual seja, uma camisa, um saco de cimento, um trocado. E consequentemente, quando as polarizações políticas estão se confundindo, os partidos radicais, nanicos por vários fatores, tornam-se obsoletos justamente pela percepção que se têm negativamente dos partidos grandes. Alguns poucos, os mais ousados por irem contra a corrupção por um ideal mais puro em militar por uma conquista ideológica, tornam-se membros de partidos radicais. Mas tantos outros, aposto que a maioria, que são reflexo da estrutura que nossa sociedade em grande parte iletrada comporta, ao se descontentarem com as mudanças que não os afetam e apoiados na crítica, por meio de diversos meios de comunicação, ao exercimento da política contemporânea, possuem maior facilidade para tender à corrupção, sequer sabendo que o que fazem é produto de corrupção.
O problema não é a denúncia da TV, por mais que esta seja tendenciosa pra favorecer outros partidos. Não está na forma como o ator social percebe as coisas. Não está nos partidos nanicos radicais nem em todos os partidos grandões. Está no que é verdade. Está na democracia sem bases de exercimento in fact, está numa multipluralidade que demonstra insuficiência ideológica na atual política. Esquerda contra esquerda, a direita se safa sempre.
Aonde está o bem comum? Enterrado e sepultado pelo cimento trocado pelo voto. Seus atores estão mortos de fome e com as mãos calejadas, com um tiro no corpo e com o nariz em cocaína. Foram vestidos com a camisa negociada com o candidato. E o dinheiro que comprou sua alma serviu para os serviços funerais.
Dentre outras coisas, é assim que se faz política no Brasil
*Publicado originalmente em 9 de outubro de 2010
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