quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sobre o tempo que nos carrega

Dentre as centenas de coisas que me incomodam em entendê-las, uma em específico talvez esteja diante de nós como a mais importante: em algum certo grau de movimento de vida humana, somos adaptados a certas situações que se colocam sobre nós e passamos a conviver com elas ao passo que deixamos de lado outros hábitos.

Pensem a vida globalizada: o ideal de que o mundo passa a ser de fato um só, as culturas devem ser integradas ou misturadas, a racionalização unidirecionada, a cacofonia compreendida, o prazer das relações, doses de protestos globais, amores distantes, emoções compartilhadas em vídeos, músicas, palavras. Onde consumistas e produtores se misturam, onde artístas e cidadãos comuns são cada vez mais um só. Onde as religiões são redescobertas, ao passo que, em nome da vida na alteridade, ser laico, flexível e diverso é preciso.

Nesses redimensionamentos do pensar humano, frutos de desenvolvimentos de perspectivas sociais, políticas e econômicas historicamente delimitadas, como ficam as relações do passado? O debate em torno do Moderno e do Posmoderno é ainda tão forte quanto de seu surgimento, não tanto pela teoria, mas agora pela prática. Se Lyotard ou outros pensadores "apressadinhos" correram para nos alertar o surgimento de uma nova era, parece que estamos sentindo-na na pele agora, de tal forma que perdemos a certeza em se tratando de época histórica. 

Afinal, você está num mundo moderno ou posmoderno?

Para entender e aguçar a discussão, é preciso delimitar bem as duas coisas. Gerará trabalho (e não é objetivo desse post) pois é impossível dar conta da ideia da modernidade em sua totalidade, ao passo que não sabemos, por outro lado, as dimensões práticas da posmodernidade. O que sobra a nós, pensadores dessa situação, é pisarmos num chão ora de uma época, ora de outra.

Muitos dizem que a modernidade tem a ver essencialmente com o capitalismo, e por isso que enquanto não houver sua superação, nada de novo surge. Outros dizem que há por trás disso outros fatores como o tipo de racionalização de um determinado movimento ideológico, ou produções de hábitos e manutenções de relações de poder que ajudariam a delimitar uma tal era na História.

Também por não saber ao certo, apenas faço apontamentos que estão ficando cada vez mais óbvios. Existem características específicas de movimentos sociais inéditos, com valores e objetivos inéditos ao passo que são globais. As formas de comunicação também estão, pela primeira vez, generalizadas em quase todas as partes do mundo, o que faz crer que sua completude se dará ao passo que determinados regimes políticos modernos caiam. A democracia está sendo discutida aos poucos em um nível global. A propósito, a ideia de Nação está se enfraquecendo em seu aspecto político. Organizações internacionais pautam algumas coisas que outrora poderiam ser simplesmente decidido nacionalmente (a questão das devastações, poluições e etc.) Surgem uma perspectiva em favor do diverso, o debate em torno dos direitos de homossexuais é forte e caminha para uma justiça ampliada e conferência de direitos a todas as formas de vida.

O que me instiga, mais que isso, no entanto, é o que está ficando para trás. Não há, tanto na física quanto na vida social, como misturar hábitos (a não ser que seja um esforço de isolamento em relação a outras sociedades, como as cidades do interior que mantém relações e mentalidade tanto feudais quanto capitalistas) pertencentes a outras épocas. Relações feudais e imperiais tiveram uma derrocada exterminante diante do surgimento do Estado de Direito junto aos valores burgueses do direito do cidadão e da democracia; mais que isso, as relações de troca de favor foram substituídas substancialmente pelo trabalho assalariado. Novas demandas, produções ideológicas, tipos de organização social e aspectos mais específicos da vida humana foram modificados para estarem de acordo com o processo de racionalização da Idade Moderna. E hoje, será que as novas transformações tecnológicas, de comunicação, na economia, não estão se direcionando novamente a superar as estruturas sociais da Idade Moderna? Ou será que essa nova organização, a nível global, continua a fazer parte ainda da Idade Moderna? Para lidar compreender isso, é preciso ver se há algo de moderno que está sendo derrubado pelo tal do "posmoderno". E é aí que entram novas discussões. O casamento, tal como vemos hoje e como nossos pais se uniram, é parte integrante de qual época? E os Estados Nacionais que parecem hoje enfraquecidos? E o ideal de Liberalismo? E as relações entre mão-de-obra e patrão? E as diferenças entre produtor e consumidor? Se eles estiverem em risco, como eu suponho, então já não estaríamos rompendo com a era da modernidade?

Anthony Giddens diz, em "As Consequências da Modernidade", que apesar de estarmos numa época de pós-modernidade, não temos outra referência a nos agarrar senão a modernidade, e por isso continuamos modernos. Pelo menos nossa geração. Por isso que eu nem penso o agora, mas penso o que pode vir depois, considerando que o que estamos presenciando agora é totalmente irreversível.

É por isso que eu digo que a posmodernidade (conceito este ainda digno de novas reflexões de acordo com as experiências empíricas que estamos vivendo) é uma questão de tempo. Uma questão de algumas gerações, talvez uns 50 ou 100 anos. Daqui pra lá, aposto que teremos novos motivos para a reorganização estrutural da(s) sociedade(s), como riscos de extinção humana mediante a guerra, as crises de alteridade e de intolerância etc.

Em uma reflexão micro, é chegada a hora de vermos casamentos religiosos serem ao menos vistos como uma tradição não tão levada a sério, dado o alto grau de separações (o "até que a morte os separe" se tornou um clichê que não se adapta mais às relações conjugais de hoje em dia. Difícil é o casal que passa a vida inteira juntos). As constituições familiares, mais racionalizadas, reduzem ou aumentam o número de filhos de acordo com os pés no chão. O progresso é criticado, mas a velocidade da crítica é tanta que já não se torna mais crítica, nem o progresso já não se torna mais progresso. Enfim, não se trata do fim da História, apenas da nossa ainda incapacidade de dizer em que período da história nós estamos de fato presenciando.

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