sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Como viver na caleidoscopianeidade?


Ultimamente eu pareço ter encontrado um termo eficaz pra compreender a minha própria condição de desejos e ações em busca da satisfação deles: caleidoscópio humano. Considerando as fragmentárias peças imagéticas de um caleidoscópio que forma uma unidade quando em movimento, imaginei que poderia estar me representando razoavelmente com esse objeto, posto que é difícil aceitar a minha constituição enquanto uma função social apenas (para além das funções sociais automáticas - filho, irmão, cidadão, etc.). Essa insatisfação pela unicidade certamente remete ao debate baumaniano de uma vida líquida - mas antes mesmo de ler Bauman essa condição já se manteve presente em mim.

Jamais queria ser pura e simplesmente um indivíduo com uma profissão apenas, cumprindo uma única função planejada no mundo. É como se houvesse uma fome e ambição de ser várias coisas, em vários momentos. Hoje, mesmo sem uma formação em quaisquer das ações a serem citadas, eu me sinto músico, escritor, empreendedor de um projeto de serigrafia, além de estudante de sociologia. Não quero jamais ser apenas uma dessas funções com dedicação exclusiva e vivendo somente para uma delas. Quero todas, quero ser tudo isso e até mais, caso venha à minha cabeça alguma necessidade de ação. Enfim, como um caleidoscópio, ficando parado eu sou um fragmento, em movimento eu sou uma unicidade de várias coisas, e acho que é isso que me conforta.

No entanto, há fatores negativos. Esse simultaneismo muitas vezes requer uma ocupação do tempo maior que uma dedicação para uma só profissão. Eu vivo isso a cada dia, sentindo que esses deveres escolhidos se apertam às 24 horas diárias, de maneira que eu busco respirar e num mesmo dia eu termine não realizando nada de produtivo para nenhuma dessas funções. Talvez eu deva me planejar mais do que planejo, mas sei que mesmo me planejando há momentos que eu não consigo responder à minha função em dado momento; um planejamento não determina que sua mente estará preparada para fazer esta função ou não aquela. Na verdade planejamentos têm servido para me mostrar o quanto o tempo tem corrido, e eu jamais posso esquecer isso.

Enfim, essa simultaneidade toda satura mas parece a melhor condição para mim. Pior coisa do que estar sendo atropelado pelas atividades em curto tempo é na verdade se prender a uma única função, a qual me fará se tornar escravo dela por muito tempo da minha vida. Várias atividades me indicam liberdade, uma liberdade ainda que limitada, mas algo que acredito me fazer mais feliz do que a ditadura da função única. Devo aprender posmodernamente como melhor viver na caleidoscopianeidade. Isso é fato!

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